Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Mar Português / Episódio da Praia de Lágrimas

 

 
 
 
 
 
 
Mar Português evoca o sofrimento e a tragédia que a aventura marítima implicou.
 
 

 

 

O Mar surge como representação simbólica do perigo, dos medos e dos obstáculos impostos à iniciativa humana («perigo», «abismo»).
 
O Mar é também símbolo do conhecimento, da verdade a que o ser humano aspira e, por isso, os heróis que superaram os seus próprios limites atingirão a sua grandeza e imortalidade («o céu»).
 
 
 

As grandes dores são o preço a pagar pelas grandes glórias. O sal é, assim, o símbolo da tragédia e da dor que os descobrimentos implicaram.
 
 
Há na aventura marítima do povo português um sentido simultaneamente heróico («...passar além do Bojador...») e trágico («...lágrimas de Portugal!»).
Assim, na primeira estrofe, o poeta invoca os sacrifícios necessários à conquista do mar (mães, noivas, filhos), mas na segunda diz que o esforço é válido, porque «tudo vale a pena se a alma não é pequena». Tudo vale a pena para atingir o ideal sonhado.
 
A figura de Deus surge de novo a representar a Vontade suprema que inspira a heroicidade do povo português. O tom épico reafirma-se na conquista do «mar português» através da dor e da glória.
 
 
 
Recursos de Estilo
 
 
-          A apóstrofe inicial contribui para a personificação do Mar, enquanto obstáculo à vontade humana de conhecer e revelar o seu mistério, surgindo como monstro vingador.
 
-          As exclamações confirmam o tom épico do poema, valorizando todos os heróis que se distinguiram não só pela ousadia mas também pelo espírito de sacrifício.
 
-          As metáforas «cruzarmos», «Bojador», «sal» e «céu» traduzem as noções de «sacrifício», «perigo», «dor» e «conhecimento / imortalidade», respectivamente.
 
-          A repetição («quantas») acentua o dramatismo da situação evocada ( a distância, o receio, a ansiedade dos que ficaram).
 
 

 
A PARTIDA DA NAUS (IV, 84, 93)
 

O tema do Episódio Praia de Lágrimas é a partida dos navegantes da praia do Restelo e a despedida dos seus familiares e amigos.
 
A consternação era geral na cidade e a bordo: tinha-se a noção dos perigos, de que o caminho era tão longo e duvidoso, de que, muito provavelmente, os que partiam não iriam regressar.
 
Deste clima de consternação davam conta as mulheres cum choro piadoso e os homens com suspiros que arrancavam. Particularmente débeis eram, contudo, as mulheres: Mães, esposas, irmãs, que o temeroso/ Amor mais desconfia acrecentavam/ A desesperação e frio e medo/ de já nos não tornar a ver tão cedo.

 

Estruturação do Episódio
 

1ª Parte
 
(84 a 86)
Antes da partida dos navegadores da praia do Restelo e da reacção saudosa dos que ficavam, descreve-se o alvoroço geral dos últimos preparativos da viagem e a oração dos nautas na ermida de N.ª Sr.ª de Belém.
 
 
 
2ª Parte
 
(87 a 92)
O narrador assinala o ajuntamento da multidão constituída por amigos, curiosos e religiosos para a procissão do adeus, enquanto os marinheiros se encaminhavam desde o santo templo até aos batéis, pelo meio da gente da cidade.
Tanto os que partiam como os que ficavam se entristeciam e a despedida atinge grande emotividade.
 
Depois das lamentações a nível geral (mulheres, mães, esposas, irmãs), seguem-se as individuais, destacando-se:
 
Uma velha mãe, símbolo da velhice abandonada, chora a partida do filho, seu único amparo, para uma morte certa.
 
Uma esposa interroga, queixa-se e, de certo modo, acusa, dominada pelo receio de perder para sempre o seu amor.
3ª Parte
 
(93)
Por determinação de Vasco da Gama, o embarque faz-se sem as despedidas habituais, para diminuir o sofrimento dos que partiam e dos que ficavam.
 
 

 
Sucedem-se as lamentações, agora a nível geral, dos velhos e das crianças, enquanto os montes reflectiam, em eco, todo este clamor humano e as areias se orvalhavam de tantas lágrimas que igualavam o seu número.

...Ó doce e amado esposo,
Sem quem não quis Amor que viver possa,
Porque is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha e não é vossa?
 


 

A natureza associa-se a uma dor à escala cósmica.
 
Os montes de mais perto respondiam,
Quase movidos de alta piedade;
A areia branca as lágrimas banhavam…
O DISCURSO DO GIGANTE ADAMASTOR
 
 

INTENCIONALIDADE DO DISCURSO
 
ELEMENTOS TEXTUAIS
 
§ O Gigante começa por reconhecer a valentia e o valor heróico dos portugueses, manifestados quer em cruas guerras, quer na ousadia de se lançarem à descoberta dos mares nunca de antes navegados.
 
 
...Ó gente ousada, mais que quantas/ No mundo cometeram grandes cousas,/ Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,/ E por trabalhos vãos nunca repousas... (41)
 
Pois os vedados términos quebrantas/ E navegar meus longos mares ousas... (41)
 
 
§ O Gigante pretende demover os portugueses da viagem empreendida, anunciando que os segredos do mar («os vedados términos do húmido elemento») jamais foram concedidos aos humanos, pelo que os nautas seriam castigados por tal transgressão.
 
 
Pois vens ver os segredos escondidos/ da natureza e do húmido elemento,/ A nenhum grande humano concedi-dos…(42)
 
Ouve os danos de mi que apercebidos/ Estão a teu sobejo atrevimento... (42)
 
 
§ O Gigante anuncia os castigos e perdições de toda a sorteque estão destinadas aos portugueses, por terem desafiado os limites impostos à sua condição pelos elementos da natureza.
 
Sabe que quantas naus esta viagem/ Que tu fazes, fizerem, de atrevidas,/ Inimiga terão esta paragem,/ Com ventos e tormentas desmedidas! (43)
 
...em vossas naus vereis, cada ano (...) Naufrágios, perdições de toda a sorte,/ Que o menor mal de todos seja a morte. (44)
 
 
§ O Gigante faz agora referência a casos concretos das duras vinganças que irão cair sobre personalidades ilustres portuguesas.
 
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Vasco da Gama remove o futuro funesto anunciado por Adamastor através da oração a Deus.
Armada de Pedro Álvares Cabral – E da primeira armada que passagem/ Fizer por estas ondas insofridas,/ Eu farei de improviso tal castigo,/ Que seja mor o dano que o perigo! (43)
 
D. Francisco de Almeida – E do primeiro ilustre (...) Serei eterna e nova sepultura... (45)
 
Família Sepúlveda – Outro também virá (...) E consigo trará a fermosa dama (...) Triste ventura e negro fado os chama. (46)
 

O Adamastor apresenta-se como senhor do mar desconhecido («meus longos mares»), ameaçando os portugueses que queriam devassar os seus domínios secretos, e profetizando para eles castigos futuros.
 
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Além do anúncio dos castigos que estão reservados aos portugueses, faz-se a
glorificação da sua confiança e ousadia, que nem as tormentas ou ameaças
conseguirão impedir de triunfar (glorificação épica).

O MOSTRENGO – Mensagem

 

 
 
 
 
 
 
Caracterização do Mostrengo
 
-          Surge na “noite de breu”, rodeado de mistério, emergindo do “fim do mar”, numa atitude ameaçadora perante os marinheiros portugueses (“ergueu-se a voar”; “voou três vezes a chiar”; “roço”; “três vezes rodou”).
-          É uma figura aterradora (“À roda da nau voou (...) a chiar...”), gigantesca e repugnante (“Três vezes rodou imundo e grosso...”).
-          O seu discurso é violento e agressivo, carregado de mistério e terror (“Quem é que ousou entrar/ Nas minhas cavernas que não desvendo/ Meus tectos negros do fim do mundo?”).
 
Valor simbólico
 
-          Representa simbolicamente os medos, os perigos e as ameaças do mar tenebroso (“Meus tectos negros do fim do mundo?/ E escorro os medos do mar sem fundo?”)
-          É uma recriação fantástica do desconhecido que os marinheiros portugueses tiveram de enfrentar.
 
Comportamento das personagens e motivos que o determinam
 
Mostrengo:
-          Surge agressivo, ameaçador, insinuando vingar-se dos navegadores portugueses pela ousadia de devassarem os seus “tectos negros” e as “cavernas” que não desvenda.
-          Ameaçado na sua autoridade sobre o mar desconhecido (“Quem vem poder o que só eu posso?”), o monstro “escorre os medos do mar sem fundo”.
 
Homem do leme:
-          Responde inicialmente de forma tímida e amedrontada perante a arrogância do monstro (“E o homem do leme tremeu...”).
-          Posteriormente irá revelar a sua coragem, quando afirma que a vontade do seu povo é superior ao seu medo (“E mais que o mostrengo que me a alma teme (...) Manda a vontade, que me ata ao leme...”).
-          Revela a sua determinação de prosseguir a rota traçada por El-Rei D. João II, não obstante o imenso terror incutido pelo monstro voador (sugestão de um destino a cumprir, não só individual como colectivo).
 
Tom épico do poema
 
-          Através do “homem do leme”, faz-se, assim, a homenagem ao herói português que luta contra o que é humanamente impossível vencer, o “mar sem fundo”, símbolo de todos os medos e perigos (“Aqui ao leme sou mais do que eu:/ Sou um Povo que quer o mar que é teu (...) Manda a vontade, que me ata ao leme,/ De El-Rei D. João Segundo!”)
 
A Ilha dos Amores – Simbologia
 

 
O prémio da IMORTALIDADE
 
A Ilha dos Amores, no contexto simbólico de Os Lusíadas, nada mais é do que o «prémio, lá no fim, bem merecido», das «deleitosas honras» que cabem aos nautas portugueses pela superação dos «trabalhos tão longos» da viagem.
 
A consagração dos heróis que engrandeceram a pátria com o seu esforço e ousadia e revelaram a virtude do seu carácter é confirmada pela sua divinização ou imortalização (…esforço e arte / Divinos os fizeram, sendo humanos…»), na ilha mágica.
 
A consagração mítica dos navegadores portugueses serve assim como uma resposta perfeita ao pessimismo das palavras do Velho do Restelo, já que a «fraca carne humana», de que todos os heróis são feitos, se diviniza.
 
A consagração do AMOR
 
Numa vertente mais humanística, Camões concebe para os nautas portugueses a recompensa da árdua aventura, através da ligação amorosa entre estes e as Ninfas. O Amor é aqui assumido pelo poeta como um sentimento supremo, cuja vivência física e espiritual poderá harmonizar o universo e dignificar o homem, fazendo-o superar os próprios deuses.
 
 
O caminho para a DIVINIZAÇÃO
 
O poeta aconselha todos os que pretendam atingir a suprema honra e imortalidade, dizendo que para tal é necessário:
 
-          despertar do «ócio ignavo» que escraviza a alma;
-          refrear a cobiça e a ambição;
-          recusar o «torpe e escuro vício da tirania»;
-          ser justo, não dando aos grandes o que é dos pequenos;
-          bater-se na guerra contra os mouros em defesa da fé cristã;
-          apoiar e defender o Rei e o Reino, seja pela palavra («conselhos bem cuidados»), seja pela acção militar.
 
 


 

«Sereis entre os Heróis esclarecidos»
 
A mitificação da VIAGEM

 


 

O Homem, «bicho da terra» tão pequeno, conseguiu conquistar o mar que o transcendia, vencendo as forças personificadas pelos deuses. Conseguiu isso pela ousadia, pelo estudo, pelo sacrifício, por querer superar-se a si próprio e «ir mais longe».
 
 


 

Mais do que o explorar dos mares, a viagem resulta da passagem do conhecido para o desconhecido, por isso, aqueles que tiveram o privilégio de contemplar a «máquina do mundo», simbolizam a curiosidade humana pelo Conhecimento e a procura da suprema harmonia do Universo (Saber – Amor – Harmonia / valores humanistas e renascentistas).


publicado por Isabel Marques às 15:14
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