Segunda-feira, 02 de Março de 2009

Material de apoio 1

 

Felizmente há Luar! – a fábula histórica
 

Tempo dramático – 1817 (século XIX)
 
Tempo da escrita – 1961 (século XX)
 
·         Agitação social que levou à revolta liberal de 1820:
 
-          Conspirações internas
 
-          Revolta contra a presença da Corte no Brasil e contra a situação de «colónia» do país
 
-          Contestação à influência inglesa no governo e no exército
 
-          Movimentos de revolta, ligados às lojas maçónicas e aos estrangeirados
 
 
 
·         Regime absolutista e tirânico:
 
-          A estranha ligação entre o poder político (D. Miguel, Beresford) e a Igreja (Principal Sousa)
 
-          A perseguição a todos os que denunciam a hipocrisia, a violên-cia, a injustiça, o obscurantismo, a falta de escrúpulos do Poder, e apelam à justiça e à liberdade
 
-          A censura, a repressão severa dos conspiradores, os processos sumários, a pena de morte
 
-          As redes de denunciantes, trai-dores e conspiradores que com-pactuam com o Poder
 
 
·         Os conflitos sociais:
 
-          Classes dominantes motivadas por interesses mesquinhos e pelo medo de perder privilégios
 
-          Povo oprimido e resignado à miséria, ao medo, à ignorância
 
·         A execução do general Gomes Freire
 
 
·         Agitação social dos anos 60, que levou à Revolução de 25 de Abril:
 
-          Conspirações internas, «golpes palacianos»
 
-          Revolta contra a guerra colonial, que teve início em Angola (1961)
 
-          Movimentos de contestação polí-tica e social (greves, revolta estudantil)
 
-          Protestos dos militantes comunis-tas e antifascistas, exigindo elei-ções livres e democráticas
 
 
·         Regime ditatorial de Salazar:
 
-          A amizade entre Oliveira Salazar e o Cardeal Cerejeira, e a defesa intransigente dos valores da Pátria, Família e Fé 
 
-          A Censura, a perseguição política aos contestatários do Poder (Pide), a falta de liberdade de opinião e de expressão, o exílio
 
-          A parcialidade da Justiça (prisão, medidas de repressão, tortura, condenações sem provas)
 
-          As redes de conspiradores e denunciantes («bufos») que actu-am na sombra
 
·         Conflitos sociais:
 
-          Classes privilegiadas e explora-doras, com reforço do seu poder
 
-          Povo reprimido e explorado, condenado à miséria, ao medo, ao analfabetismo
 
·         O assassinato do general Humberto Delgado, por elementos da Pide
 

 
 
 

Felizmente há Luar! – Luís de Sttau Monteiro

 
Simbologia do título
 
A frase «felizmente há luar» é proferida por duas personagens de mundos diferentes:
-          D. Miguel, símbolo do Poder (Acto II, 131)
-          Matilde, símbolo da resistência à tirania (Acto II, 140)
 
Luar
 
-          Para D. Miguel, o luar permitirá que o clarão da fogueira atemorize todos os que querem lutar pela liberdade, confirmando assim o efeito dissuasor e exemplar das execuções perante aqueles que ousassem desafiar a autoridade dos Governadores (a noite é mais assustadora, as chamas poderiam ser vistas em toda a cidade, o luar convidaria toda a gente a assistir ao castigo).
 
-          Para Matilde, o luar sublinhará a intensidade do fogo, que simboliza a coragem e a força de um homem que morreu pela liberdade e, por isso, se torna símbolo do esclarecimento e da revolta contra a tirania (anúncio da revolução liberal / 25 de Abril?). 
 
-          A lua, porque privada de luz própria e sujeita a fases, representa a periodicidade e a renovação, a transformação. Ela é também o símbolo da passagem da morte para a vida (durante três noites em cada ciclo lunar desaparece, para voltar a surgir).
 
Fogo
 
-          A fogueira acaba por ter um carácter redentor, simbolizando a purificação, a morte da «velha ordem», a vida e o conhecimento. O fogo traduz a chama que se mantém viva e a fé na liberdade que há-se chegar («Julguei que isto era o fim e afinal é o princípio. Aquela fogueira, António, há-de incendiar esta terra!», 140).
 
-          Na perspectiva dos Governadores, o fogo traduz a destruição, o castigo de todas as tentativas de rebelião do povo em prol da liberdade.
 
Luz / noite
 
-          A luz traduz a caminhada da sociedade em direcção à liberdade, vencendo o medo e a insegurança da noite, recusando a violência e a repressão.
 
-          A noite (escuridão, trevas), por contraste, representaria a morte, a repressão, a violência, o castigo, o obscurantismo, a conspiração.
 
 
O carácter apoteótico e trágico
 
 
A dimensão trágica
 
A obra de Sttau Monteiro, pela reflexão que faz do destino do homem, enquanto membro de uma sociedade, sujeito às suas normas e valores, lembra a tragédia clássica, nomeadamente pelos elementos seguintes:
 
-          O carácter excepcional das personagens:
§ Gomes Freire, pela coragem, determinação e defesa intransigente dos ideais de justiça e liberdade
§ Matilde, pela nobreza moral, pela grandeza dos seus sentimentos e pela progressiva consciencialização do seu dever de verdadeira patriota
 
-          A simplicidade da acção e o despojamento cénico
 
-          O desenlace trágico: o martírio e morte de Gomes de Freire
 
 
 
A dimensão apoteótica
 
-          O clima apoteótico da obra é recriado através da fogueira onde Gomes de Freire é martirizado que, em vez de ser dissuasora, torna-se inspiração para que outros lutem pela liberdade:
Matilde: Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina! Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim... (140)
 
-          Assim, o sacrifício do general é também uma homenagem à sua heróica defesa da liberdade, um símbolo de esperança para o povo oprimido e um apelo à transformação da sociedade (o ambiente mágico e espectral que a execução recria garante uma interpretação simbólica da noite, a traduzir a opressão, a violência, o obscurantismo, e da luz, como representação do esclarecimento, da liberdade de expressão e opinião).
 
Matilde: Julguei que isto era o fim e afinal é o princípio. Aquela fogueira, António, há-de incendiar esta terra! (140)
 
-          No final, o espectador percebe que os acontecimentos a que assistiu são de todos os tempos, pois é o próprio homem que está em causa e a obra torna-se, assim, épica.
 
 
 
O teatro épico (inspiração de Bertolt Brecht)
 
 
A obra de Sttau Monteiro, à semelhança do que acontece com a de outros escritores, como Bernardo Santareno (O Judeu) e José Cardoso Pires (O render dos heróis), aparece nitidamente influenciada por linhas dramáticas inovadoras, não só pelo suporte histórico da intriga, mas também pela relação que pretende estabelecer com o espectador, que deve assumir um papel testemunhal e crítico face aos acontecimentos apresentados em palco para mais lucidamente intervir e transformar a sociedade em que está inserido.
 
 
A fábula histórica
 
 
-          Sttau Monteiro recupera acontecimentos que marcam o início do século XIX, para servirem de denúncia da situação social e política do país dos anos 60, em plena ditadura salazarista. Assim, as primeiras manifestações sociais e políticas, que levaram à revolução liberal de 1820, servem também como denúncia da miséria, da opressão e da injustiça que dominam o Portugal da década de sessenta. O martírio de Gomes Freire é também o do general Humberto Delgado, silenciado pelo regime, porque símbolo do protesto e do inconformismo face à ditadura. Ao evocar situações e personagens do passado, o autor tem um pretexto para falar do presente.
 
-          A revolta dos mais esclarecidos, muitas vezes organizados em sociedades secretas (lojas maçónicas), contra o poder absolutista e tirânico dos Governadores, que culminará na morte de Gomes Freire, herói que reclama o direito do povo à dignidade e à indignação contra os poderosos, é também o apelo à revolta dos militantes antifascistas que puseram em causa o Estado Novo.
 
-          A obra exprime assim a revolta contra o Poder e a convicção de que é necessário mostrar o mundo e o homem em constante devir. Defende as capacidades do homem que tem o direito e o dever de transformar o mundo em que vive.
 
-          Esta forma de teatro também denuncia um dos dramas da criação literária durante o Estado Novo: a censura.
 
 
Análise crítica da sociedade
 
 
-          Ao mostrar a realidade, em vez de a representar, o drama épico leva o espectador a reagir criticamente e a tomar posição. Este, enquanto elemento de uma sociedade, assume a sua posição testemunhal, interpretando, reflectindo e julgando os acontecimentos apresentados.
 
-          O espectador pode assim analisar e julgar o homem no seu devir histórico, na sua situação social, podendo modificar-se e modificar o curso da história.
 
 
A técnica da distanciação
 
 
-          À semelhança de Brecht, Sttau Monteiro propõe um afastamento do espectador perante a história narrada, para que, de forma mais autêntica, possa emitir juízos críticos sobre a realidade apresentada em palco. Ao contrário do teatro clássico, o drama épico não procura criar um efeito hipnótico sobre o espectador, inspirando-lhe emoções e sentimentos, como o terror e a piedade (catarse), mas antes torná-lo uma voz activa no julgamento da própria sociedade em que se insere.
 
-          A identificação com o herói desperta emoções, transporta o espectador para o universo fictício do palco, mas prejudica a visão crítica do público, tornando-o incapaz de uma análise objectiva da acção. A exposição em palco de formas erradas ou alienadas de vida levarão o espectador a descobrir a sua situação no mundo e a encontrar formas de combater as injustiças sociais.
 
 
A função pedagógica
 
 
-          O teatro assume, assim, uma finalidade pedagógica, já que move o espectador a intervir lúcida e criticamente sobre a realidade social em que vive, incita-o a actuar e alerta-o para a condição humana, de modo a que se aperceba de todas as formas de injustiça e opressão.
 
 
A intemporalidade da obra
 
 
-          Fazendo a ligação entre dois momentos históricos (séculos XIX e XX), a intemporalidade da obra remete para a luta de sempre do ser humano contra a tirania, a opressão, a traição, a injustiça e todas as formas de perseguição. Felizmente há luar! põe em destaque a preocupação do homem com o seu destino, em luta contra a miséria e a alienação, denunciando a ausência de moral e de liberdade... O homem é, assim, colocado perante o desafio de se conhecer e de conhecer o mundo em que se insere («Todos sonhos chamados, pelo menos uma vez, a desempenhar um papel que nos supera. É nesse momento que justificamos o resto da vida, perdida no desempenho de pequenos papéis indignos do que somos.» 89)
 
 
Estratégias para a criação de um teatro épico
 
 
-          O efeito de distanciação entre a realidade apresentada em palco e o espectador, para garantir a capacidade de observação crítica deste, é conseguido através de vários recursos cénicos, como as didascálias, as personagens e o cenário.
 
-          As didascálias apresentam uma orientação precisa de leitura, claramente subjectiva, sugerindo ao espectador/leitor a construção de sentidos que ultrapassam o gozo estético e literário da obra. O dramaturgo convida o espectador/leitor a assumir uma atitude empenhadamente crítica e distanciada face aos acontecimentos que lhe são apresentados:
 
 
§ O público tem de entender, logo de entrada, que tudo o que se vai passar em palco tem um significado preciso. Mais: que os gestos, as palavras e o cenário são apenas elementos duma linguagem a que tem de adaptar-se. (15)
 
§ Pretende-se criar desde já, no público, a consciência de que ninguém, no decorrer da peça, vai esboçar um gesto para o cativar ou para acamaradar com ele. (O réu não se senta aio lado dos juízes.) (16)
 
 
-          As personagens desdobram-se em várias «personalidades» ou assumem várias «máscaras», o que impede a integridade, a consistência ou coerência dos seus gestos e valores, mas também a própria identificação do espectador com essas personagens ou figuras fictícias. Veja-se, por exemplo, a simulação de Vicente, que recusa a sua origem humilde e revela as suas mesquinhas ambições (27), e a de Manuel, que representa simultaneamente o papel de mendigo e de fidalgo petulante (78-79).
 
-          próprio cenário, despojado e pobre em recursos cénicos evita que o espectador se deixe envolver com os dramas apresentados e interprete toda a organização cénica como simbólica: as cadeiras (opulência e autoridade dos governantes) contrastam com as ruas (miséria e opressão do povo, sempre vigiado pela polícia).


publicado por Isabel Marques às 15:43
Obrigado
Anónimo a 14 de Março de 2009 às 21:15

muito bom!
Anónimo a 18 de Maio de 2009 às 12:13

nao presta
ccvgcvgvf a 7 de Março de 2010 às 12:09

cura-te. este site está muito bem feito
eu a 17 de Março de 2010 às 19:33

cura-te tu !
primeiro o site nao prima pelo seu design...
segundo tive de aumentar o zoom para 200% para ler aquelas letras...
e terceiro só li dois paragrafos e decidi mudar de site...
agora diz que é bueda fixe.....
Guilherme a 26 de Maio de 2011 às 17:48

Cura-te tu! , parte 2...
Desde já, uma pessoa quando está à procura de informação o design é a última coisa que interessa. A qualidade e o rigor e a organização são o fundamental e não custa nada aumentar o zoom, por amor de deus... Outros sites ou blogues que explicam este tipo de temas, ou estão todos em brasileiro... ou não estão bem organizados e não contemplam todos os assuntos. Se dizes que este blogue não presta, 1º devias apontar pelo menos 1 site que seja melhor
João a 27 de Maio de 2012 às 15:17

VESGO
mthafcker a 30 de Janeiro de 2014 às 16:07

Obrigado.
Anónimo a 5 de Fevereiro de 2011 às 18:40

Bem bom exta explicacao, de tantos sites que percorri para saber o verdadeiro significado de "felizmente ha luar" e so neste e que me esclareceu...boa a,igo gostei. continua
bna a 10 de Agosto de 2011 às 11:03

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