Segunda-feira, 02 de Março de 2009

 

FELIZMENTE HÁ LUAR!
As personagens dramáticas
 
 
OS REVOLUCIONÁRIOS
 
GOMES FREIRE DE ANDRADE
 
·         É um homem instruído, letrado, um «estrangeirado», símbolo da integridade de carácter, da recusa da tirania em defesa dos ideais de justiça e liberdade (137). É também o símbolo da modernidade e do progresso, já que adepto das novas ideias liberais.
 
·         A sua mitificação pelo povo, que vê nele a personificação do esclarecimento, do inconformismo corajoso e da esperança na luta contra a repressão e o terror (20,24, 34), vai torná-lo num homem incómodo, subversivo e perigoso para o poder instituído.
 
·         É assumido como uma ameaça à autoridade dos governadores, gerando ódios e desejos mesquinhos de vingança (21-22,71), seja pela sua lúcida integridade moral, seja pela sua argúcia excepcional de militar, ou até mesmo pela admiração incontestável que lhe dedica o povo.
 
·         Inteligente, lúcido, capaz de ver para além da hipocrisia dos poderosos (95), mas humilde e discreto, já que nunca se serviu do seu estatuto para influenciar o povo (87).
 
·         A prova da sua inocência está na imagem que dele dá Matilde: uma conduta moral irrepreensível (83), uma coragem inabalável que o faz lutar até à morte (132), o seu sacrifício injusto, como o de Cristo (122, 130).
 
MATILDE
 
·         Amante, esposa e «companheira de todas as horas» do general, exprime romanticamente o amor (85, 132) que a faz acreditar no sentido da sua vida (92) e a ajuda a manter a esperança de o marido conseguir vencer a vilania da morte a que foi sujeito.
 
·         É o símbolo da sensibilidade feminina, que se revela no desespero da perda (97, 116, 130), no sofrimento de quem ama e se vê despojado do ser que o completa (120). O seu grito alucinado de desespero representa a necessidade de reaver o homem que o destino tornou seu (94).
 
·         Reage violentamente perante o ódio e as injustiças, desmascarando o interesse mesquinho, a hipocrisia, a traição, a manipulação perversa do poder (93, 94, 95). Revela uma inteligência subtil e uma grande capacidade de argumentação, capaz de desarmar os falsos valores dos governantes (124-126).
 
·         Corajosa, assume-se como a voz da consciência dos governantes (88), obrigando-os a enfrentar os seus actos de cobardia (118, 128-129). O seu discurso final é uma resposta provocatória à violência da sociedade e um anúncio de esperança numa nova era (136-137).
·         Profundamente humana (101), luta sempre pelos ideais que aprendeu a defender junto do marido, sejam eles o da sinceridade, o da caridade, ou o da revolta e da indignação perante a prepotência dos poderosos (90-92), destacando-se pela sua excepcionalidade num mundo de ganância e hipocrisia (85).
 
ANTÓNIO DE SOUSA FALCÃO
 
·         Símbolo da impotência perante o despotismo dos governadores (86).
 
·         A sua lealdade a Gomes Freire e Matilde é revelada na profunda admiração (89), no apoio incondicional que lhes dedica (115), acompanhando a esposa do general na angustiosa tentativa de o libertar (116-117), não poupando elogios à conduta do homem corajoso com quem partilhara sonhos e ideais (110, 136-137).
 
·         O seu sentido crítico fá-lo duvidar da justiça dos governantes e revoltar-se contra a indignidade do tratamento dado ao general durante a sua prisão (111-112).
 
·         Perante o exemplo de coragem do general, chega a reconhecer a sua cobardia e a inutilidade da sua luta (136-137), embora não se contenha e chegue mesmo a pôr em risco a sua vida ao insultar D. Miguel (119).
 
·         O destino do amigo fá-lo encontrar-se consigo próprio, a «rever-se por dentro», o que altera a sua concepção do mundo e das coisas (89, 137).
 
 
OS GOVERNADORES
 
 
·         Os três elementos que compõem o Conselho de Regência representam o poder político e todas as suas manipulações para manter uma autoridade continuamente ameaçada, porque ilegítima. São eles os chefes da conspiração, pois escolhem alguém que «valha a pena crucificar», mesmo sem provas concretas. Embora se aproximem no carácter vil e mesquinho, cada um deles simboliza diferentes interesses e invoca diferentes razões para a morte de Gomes Freire (42).
 
D. MIGUEL
 
·         É o protótipo do pequeno tirano, inseguro e arrogante, simbolizando a decadência do país que governa, minado pela hipocrisia e pela mesquinhez. O seu espírito decrépito e caduco impedem o progresso, já que acredita fanaticamente na manutenção de um governo absolutista e numa sociedade perfeitamente estratificada (69).
 
·         De carácter megalómano e prepotente, revela o seu calculismo político, a sua ambição desmedida e um egoísmo arrogante, no exercício do poder (60-61, 65-66).
 
·         Desprovido de integridade moral e corrupto, personifica a injustiça, a traição, aliada à vingança (43), pois vê na popular figura do primo uma ameaça ao seu prestígio e poder, condenando-o sem escrúpulos (70-71).
 
·         Frio, desumano, é a «personificação da mediocridade consciente e rancorosa» (71-72, 116-117). A sua crueldade revela-se perante a execução de Gomes Freire, que será exemplo para os que ousem desafiá-lo (131).
 
PRINCIPAL SOUSA
 
·         Representa o poder eclesiástico dogmático, fanático, persecutório e repressivo (69), que se deixa corromper, aliando-se perversamente aos interesses políticos (36-37, 64-65).
 
·         De carácter mesquinho e vingativo, diz odiar os franceses, os principais responsáveis pelo clima de revolta que agita o reino (39-40), e justifica a condenação de Gomes Freire por um desagravo cometido sobre um familiar (68, 72), embora tente dissimulá-la sob a forma de um acto de defesa do reino, apenas para manter a sua consciência tranquila (40, 67, 74).
 
·         A sua cobardia impede-o de manter uma discussão séria com Beresford, embora não esconda a sua animosidade pelo inglês (41, 59).
 
·         Hipócrita, o seu discurso religioso é continuamente deturpado em função dos seus interesses (36), e recorre a um tom falsamente paternalista e compreensivo (38,121), embora a sua falsidade e infâmia sejam desmascaradas por Matilde (122-123).
 
 
BERESFORD
 
·         Representa o poder calculista e o interesse material, que fazem dele um mercenário astuto e arrogante (58, 59).
 
·         De carácter trocista e mordaz, não esconde o seu desprezo pelo país onde é obrigado a viver, não desperdiçando qualquer oportunidade para ridicularizar a sua pequenez e provincianismo (55-57) e até para provocar o principal Sousa de forma irónica, porque representante de um catolicismo caduco (41, 54).
 
·         Reconhecendo ser alvo do desprezo do povo, procura a todo o custo salvaguardar o seu posto de militar, participando activamente no processo de condenação do homem que poria em risco a sua carreira, o seu prestígio e os seus privilégios (63-64). Embora sorria da corrupção generalizada que domina o país, serve-se da denúncia para manter o seu estatuto (44, 68-69).
 
·         O seu cinismo e a sua arrogante crueldade revelam-se na humilhação a que sujeita Matilde, quando esta lhe pede a vida do marido (93-94, 99).
 
 
OS DELATORES
 
VICENTE
 
·         Símbolo da falsidade, da ambição e do oportunismo (103), defende o valor do dinheiro e do poder como forma de ascender socialmente (25), ainda que o faça pela traição e pela denúncia (30-32). Hipócrita, tenta dissimular a indignidade dos seus actos através do serviço a el-rei e à Pátria (39).
 
·         Servil e materialista, procura, através da astúcia e da adulação, conquistar a simpatia dos governadores, mesmo que tenha de trair os da sua classe (34, 38).
 
·         A imoralidade e mesquinhez do seu carácter insinuam-se no seu discurso demagógico e provocador, que revela a sua revolta e desprezo por uma classe na qual se recusa a inserir (26-27). É um homem frustrado por ter nascido pobre e movido pela inveja e pelo ressentimento.
 
·         Reveste-se de um falso humanismo e de uma solidariedade duvidosa para fomentar a ira popular contra Gomes Freire (21-22). 
 
ANDRADE CORVO / MORAIS SARMENTO
 
·         Tal como Vicente, representam o grupo dos delatores, que colaboram com o regime visando o lucro pessoal (44, 47). A falta de escrúpulos e de valores éticos (43), a ganância e a preguiça, justificam a denúncia do general e a traição aos valores que defendem, nomeadamente os ideais maçónicos e o seu pretenso patriotismo (46, 48-50).
 
·         O seu carácter cobarde enuncia-se no modo como se apresentam perante os governadores, «embuçados», e a adulação é também a forma usada para cair nas graças dos poderosos (64).
 
 
O POVO
 
MANUEL
 
·         «O mais consciente dos populares» é também a voz da denúncia crítica continuamente silenciada (16), da ironia abafada pela repressão contínua das forças policiais (77).
 
·         Representa metaforicamente o povo português condenado a uma existência ignóbil, coexistindo com a miséria, a fome, a opressão, desanimado e impotente para alterar o seu destino (16, 78, 105-106).
 
·         O conformismo é a alternativa possível perante um governo decadente e fútil, que garante a sua autoridade através do medo e da violência (105-109). O cansaço de sobreviver num mundo onde a vida é um vazio é alternado com a profunda consciência das desigualdades sociais e um tocante respeito pela dor alheia (108-109).
 
RITA
 
·         A solidariedade para com Matilde é marcante (104), pois como mulher compreende a perda irremediável do amor e da família (82-83). É com comoção que a beija, depois de lhe entregar a moeda, símbolo da sua cumplicidade (110).
 
ANTIGO SOLDADO
 
·         A identidade anónima confirma a simbologia da sua personagem: reconstrói o percurso militar de Gomes Freire, lembrando o valor da luta pela liberdade, mas é também a representação do desprezo a que o regime vota os homens que se sacrificam nos seus exércitos (22).
 
·         Também ele personaliza o desalento, o pessimismo e a decepção do povo que vê adiada a possibilidade de mudança com a prisão do general (80).


publicado por Isabel Marques às 15:47
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