Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

 

Português | 12º ano | «Memorial do convento» - as personagens
 
Memorial do Convento é uma narrativa histórica que entrelaça personagens e acontecimentos verídicos com seres conseguidos pela ficção.
O facto de personagens fictícias (Baltasar e Blimunda) actuarem juntamente com personagens reais permite que os limites entre a realidade e a ficção se misturem, tornando as primeiras mais verosímeis.
 
D. João V
§   Amante dos prazeres humanos, a figura real é construída através do olhar crítico do narrador, de forma multifacetada:
Ä é o devoto fanático que submete um país inteiro ao cumprimento de uma promessa pessoal (a construção do convento, de modo a garantir a sucessão) e que assiste aos autos-de-fé;
Ä é o marido que não evidencia qualquer sentimento amoroso pela rainha, apresentando nesta relação uma faceta quase animalesca, enfatizada pela utilização de vocábulos que remetem para esta ideia (como a forma verbal" emprenhou" e o adjectivo "cobridor");
Ä é o megalómano que desvia as riquezas nacionais para manter uma corte dominada pelo luxo, pela corrupção e pelo excesso;
Ä é o rei vaidoso que se equipara o Deus nas suas relações com as religiosas;
Ä é o curioso que se interessa pelas invenções do padre Bartolomeu de Gusmão;
Ä é o esteta que convida Domenico Scarlatti a permanecer em Portugal;
Ä é o homem que teme a morte e que antecipa a sua imortalidade, através da sagração do convento no dia do seu quadragésimo primeiro aniversário.
 
D. Maria Ana Josefa
 
§   A rainha representa a mulher que só através do sonho se liberta da sua condição aristocrática para assumir a sua feminilidade. D. Maria Ana é caracterizada como uma mulher
Ä passiva,
Ä insatisfeita,
Ä que vive um casamento baseado na aparência, na sexualidade reprimida e num falso código ético, moral e religioso.
§   A transgressão onírica é a única expressão da rainha que sucumbe, posteriormente, ao sentimento de culpa. A pecaminosa atracção incestuosa que sente por D. Francisco, seu cunhado, conduzem-na a uma busca constante de redenção através da oração e da confissão - COMPLEXO DE CULPA.
§   A rainha vive num ambiente repressivo, cujas proibições regem a sua existência e para a qual não há fuga possível, a não ser através do sonho, onde pode explorar a sua sensualidade.
§   Consciente da virilidade e da infidelidade do marido (abundam os filhos bastardos), D. Maria Ana assume uma atitude de passividade e de infelicidade perante a vida.
 
Baltasar Sete-Sóis
 
§   Baltasar Mateus é um dos membros do casal protagonista da narrativa.
§   Representa a crítica do narrador à desumanidade da guerra, uma vez que participa na Guerra da Sucessão (1704-1712) e, depois de perder a mão esquerda, é excluído do exército.
§   Construído enquanto arquétipo da condição humana, Baltasar Sete-Sóis é um homem pragmático e simples, que assume o papel de demiurgo, o deus criador, na construção da passarola (ao realizar o sonho de Bartolomeu de Gusmão).
§   Participa na construção do convento e partilha, através do silêncio, a vida de Blimunda Sete-Luas.
§   Sucumbe às mãos da Inquisição.
 
Blimunda Sete-Luas
§   Blimunda é o segundo membro do casal protagonista da narrativa. Mulher sensual e inteligente, Blimunda vive sem subterfúgios, sem regras que a condicionem e escravizem.
§   Dotada de poderes invulgares, como a mãe, escolhe Baltasar para partilhar a sua vida, numa existência de amor pleno, de liberdade, sem compromissos e sem culpa.
§   Blimunda representa o transcendente e a inquietação constante do ser humano em relação à morte, ao amor, ao pecado e à existência de Deus.
§   O seu dom particular (ecovisão, ou seja a capacidade de ver por dentro) transfigura esta personagem, aproximando-a da espiritualidade da música de Scarlatti e do sonho de Bartolomeu de Gusmão.
§   Ao visualizar a essência dos que a rodeiam, Blimunda transgride os códigos existentes e percepciona a hipocrisia e a mentira.
 
Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão
§   O padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão representa as novas ideias que causavam estranheza na inculta sociedade portuguesa.
§   Estrangeirado, Bartolomeu de Gusmão tornou-se um alvo apetecido da chacota da corte e da Inquisição, apesar da protecção real.
§   Homem curioso e grande orador sacro (a sua fama aproxima-o do padre António Vieira).
§   Bartolomeu de Gusmão evidenciou, ao longo da obra, uma profunda crise de fé, a que as leituras diversificadas e a postura "antidogmática" não serão alheios, numa busca incessante do saber.
§   A sua personagem risível - era conhecido por "Voador" - torna-o elemento catalisador do voo do passarola, conjuntamente com Baltasar e Blimunda.
§   A tríade corporiza o sonho e o empenho tornados realidade, a par da desgraça, também ela, partilhada (loucura e morte, em Toledo, de Bartolomeu de Gusmão, morte de Baltasar Sete-Sóis no auto-de-fé e solidão de Blimunda).
 
Domenico Scarlatti
§   Scarlatti representa a arte que, aliada ao sonho, permite a cura de Blimunda e possibilita a conclusão e o voo da passarola.
 
O Povo
 
§   O verdadeiro protagonista de Memorial do Convento é o povo trabalhador. Espoliado, rude, violento, o povo atravessa toda a narrativa, numa construção de figuras que, embora corporizadas por Baltasar e Blimunda, tipificam a massa colectiva e anónima que construiu, de facto, o convento.
§   A crítica e o olhar mordaz do narrador enfatizam a escravidão a que foram sujeitos quarenta mil portugueses, para alimentar o sonho de um rei megalómano ao qual se atribui a edificação do Convento de Mafra.
§   A necessidade de individualizar personagens que representam a força motriz que erigiu o palácio-convento, sob um regime opressivo, é a verdadeira elegia de Saramago para todos aqueles que, embora ficcionais, traduzem a essência de ser português:
Ä     GRANDES FEITOS, COM GRANDE ESFORÇO E CAPACIDADE DE SOFRIMENTO
 
Em suma
 
Ä Considerando que a estrutura narrativa do romance está assente no conflito motivado pela construção do Convento de Mafra, verificam-se os seguintes papéis:
Antagonistas: classe dominante/ opressora (clero e nobreza) Vs. povo, a classe dominada/ oprimida; ao longo da obra, os primeiros acabam por ser rebaixados e ridicularizados, enquanto que o Povo é valorizado pelo narrador.
Mediadores do Conflito: Baltasar, Blimunda, membros do povo; Padre Bartolomeu, membro do Clero; Domenico Scarlatti, aristocrata e músico.
Ä A imagem da vida real é dada em permanente contraste com a vida dos verdadeiros heróis do romance: o par real reflecte a visão histórica da época que se caracterizava pelo excesso, a riqueza, a corrupção, a sexualidade reprimida e subordinada ao falso código cerimonioso e moral religioso, perdendo, assim, a sua “grandeza real”.
 
Exercícios
 
Proceda, agora, ao confronto entre a relação amorosa do casal régio e a protagonizada pelo casal popular ao longo de várias passagens textuais.
 
Excerto 1:
«Há muitos modos de juntar um homem e uma mulher, mas, não sendo isto inventário nem vademeco de casamentar, fiquem registados apenas dois deles, e o primeiro é estarem ele e ela perto um do outro, nem te sei nem te conheço, num auto-de-fé, da banda de fora, claro está a ver passar os penitentes e de repente volta-se a mulher para o homem e pergunta, Que nome é o seu, não foi inspiração divina, não perguntou por sua vontade própria, foi ordem mental que lhe veio da própria mãe, a que ia na procissão, a que tinha visões e revelações, e se, como diz o Santo Ofício as fingia, não fingiu estas, não que bem viu e se lhe revelou ser este soldado maneta o homem que haveria de ser de sua filha, e desta maneira os juntou. Outro modo é estarem ele e ela longe um do outro, nem te sei nem te conheço, cada qual em sua corte, ele Lisboa, ela Viena, ele dezanove anos, ela vinte e cinco, e casaram-nos por procuração uns tantos embaixadores, viram-se primeiro os noivos em retratos favorecidos, ele boa figura e pelescurita, ela roliça e brancaustríaca, e tanto lhes fazia gostarem-se como não, nasceram para casar assim e não doutra maneira, mas ele vai desforrar-se bem, não ela coitada, que é honesta mulher, incapaz de levantar os olhos para outro homem, o que acontece nos sonhos não conta»
 
  1. Por que razão se limitará o narrador a estes dois modos de união?
  2. Qual o significado da oposição entre a relação dos dois casais no contexto da obra?
 
Excerto 2:
 «Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltasar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz, e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber e queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Se não tens para onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.
Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.»
 
  1. Explique a importância do diálogo enquanto elemento diferenciador do par popular e do par régio.
  2. Mostre como, apesar da grande espontaneidade, a união de Baltasar e Blimunda não deixa de se fundamentar num ritual.
  3. Explicite o significado do jogo de palavras «Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro,»
 
Excerto 3:
«Trabalharam ambos até ao pôr-do-sol. Com ramos de arbustos, Blimunda fez uma vassoura para varrer as folhas e os detritos, depois ajudou Baltasar a substituir os vimes partidos, a untar com sebo as lamelas. Coseu, seu trabalho de mulher, a vela que se esgarçava em dois lugares, como Baltasar fizera outras vezes, seu trabalho de soldado, e agora rematava cobrindo de breu a superfície restaurada. Fez-se entretanto noite. Baltasar foi despear o burro para que o coitado não ficasse por ali tão incomodamente travado, e prendeu-o perto da máquina, daria sinal se viesse bicho. Já antes tinha inspeccionado o interior da passarola. (...) Era como o dentro de um ovo, a casca dele, o silêncio que lá está. Ali se deitaram, numa cama de folhagem, servindo as próprias roupas despidas de abrigo e enxerga. Em profunda escuridão se procuraram nus...»
 
1. Mostre como a actividade laboral reforça a união de Baltasar e Blimunda.


publicado por Isabel Marques às 23:47
Bom dia,
Resolvi aventurar-me numa possivel prova de portugues de acesso a universidade.Para tal tenho estado a estudar vários livros, dos quais o memomrial do convento.
Gostaria se possivel a correçao destes exercicios.
Sei que me iria ajudar muito.
Agradeço desde já a sua atençao
Ana Sousa
Ana Maria Candeias Sousa a 1 de Maio de 2017 às 12:04

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