Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

 

Memorial do Convento, de José Saramago

 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 

«A personalidade de Saramago é, como a sua própria obra, multifacetada e sempre em busca do sentido para esta efemeridade, que constitui a vida e o mundo.»
 
 
 
 
 
 
 
Classificação tipológica do romance
 
 
A construção do Convento de Mafra, o espectro da Inquisição, o projecto da passarola voadora do padre Bartolomeu de Gusmão e um conjunto de outros factos que sucederam durante o reinado de D. João V dão corpo à obra Memorial do Convento. Com as memórias de uma época, reinventando a História pela ficção, Saramago constrói um romance histórico e simultaneamente social, ao fazer a análise das condições sociais, morais e económicas da corte e do povo.
 
·         Romance histórico Memorial do Convento propõe uma minuciosa descrição da sociedade portuguesa do início do século XVIII, marcada pela sumptuosidade da corte, associada à Inquisição, e pela exploração dos operários que construíram o convento. A referência à Guerra da Sucessão, a imponência bárbara dos autos-de-fé, a construção do convento, a construção da passarola voadora e tantos outros factos conferem à obra a designação de romance histórico.
 
·         Romance social / de intervenção – Ao representar os costumes de uma época e destacar o papel do povo oprimido, ao denunciar todas as formas de repressão, opressão e censura, o romance pretende encontrar um sentido para a História para melhor se compreender o presente (de notar que Saramago denuncia assim a tirania persecutória do regime salazarista).
 
·         Romance de espaço – Saramago propõe a representação de uma época, interessando-se por traduzir não apenas o ambiente histórico, mas também por apresentar vários quadros sociais que permitem um melhor conhecimento do ser humano, através da reconstrução das vivências da corte e do povo humilde, da intimidade e deveres conjugais dos soberanos, das leviandades do clero, da construção da passarola, das perseguições religiosas da Inquisição…
 
 
Contexto histórico-político
 
 
Estamos no século XVIII. Em Portugal, vive-se o reinado de D. João V, um dos mais longos da nossa História, envolvido em problemas internos e políticos da Europa, como a Guerra da Sucessão espanhola, na qual participa Baltasar. As atenções do rei estavam concentradas no Brasil, de onde vinha o ouro e os diamantes que melhoraram as condições da economia portuguesa e suportaram a grandiosa construção do Convento de Mafra.
 
O século XVII português é ainda marcado pelo Iluminismo trazido pelos estrangeirados (note-se a importância dos conhecimentos técnicos do padre Bartolomeu), pelo obscurantismo da população e pelo medo do poder da Inquisição, que perseguia todos aqueles que se atrevessem a pôr em causa o poder instalado.
 
 
Intencionalidade da obra
 
 
Memorial do Convento pretende essencialmente reinventar a História através da ficção, não só para resgatar do anonimato o povo humilde que é assumido como o verdadeiro herói construtor do Convento de Mafra, mas também para garantir os seguintes aspectos:
 
·         o empenhamento crítico do leitor face a todas as formas de repressão que limitam a liberdade do ser humano ao longo de todos os tempos (através de Blimunda, que recolhe a alma de Baltasar quando este é condenado, Saramago representa a sobrevivência do povo, quando a repressão atinge requintes de sadismo);
·         a compreensão do destino do homem, da sua grandeza e dos seus limites, procurando a sua realização plena através do trabalho, do sonho, do amor, da fé e do mistério…
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Linhas temáticas
 
 

O AMOR

 
 
Amor contratual: relação rei / rainha
 
O rei e a rainha são representantes do poder e da ordem, mas também da repressão característica de um regime absolutista. A relação conjugal resume-se a um único objectivo: dar um herdeiro à coroa. Não existe nenhum envolvimento afectivo entre o rei e a rainha.
O rei cumpre «vigorosamente» o seu dever de marido e vai ao quarto da rainha duas vezes por semana, mas a «devota parideira» é já culpabilizada por mais de dois anos de esterilidade, pois que «caiba a culpa ao rei, nem pensar, porque abundam no reino bastardos da real semente…».
 
O cerimonial que reveste o encontro periódico do casal revela-nos uma relação sem amor, como podemos verificar pelos seguintes aspectos:
·         o ambiente anti-erótico (excesso de roupas, presença de camareiras e camaristas…);
·         o artificialismo que rodeia um acto que devia ser espontâneo e natural. (págs. 15-17)
 
O amor contratual entre D. João V e a rainha D. Maria Ana é severamente criticado pelo narrador (págs. 111-112) e dá origem a:
 
·         infidelidade do rei, confirmada pela existência de bastardos e pelo convívio com as freiras do convento de Odivelas; (pág. 11)
·         sonhos eróticos da rainha com o infante D. Francisco, que a deixam atormentada pela consciência de estar em pecado (não revela em confissão aquilo que acha vergonhoso e cumpre penitência na oração e em peregrinações pelas igrejas). (pág. 17)
 
 
 
 


 

D. Francisco acabará por destruir as ilusões da rainha ao revelar a sua intenção de assumir a coroa após a morte do rei. (págs. 113-114)
 
 
O rei e a rainha são descritos caricaturalmente e os episódios jocosos tentam destituí-los do seu estatuto real e aproximá-los das pessoas vulgares e mortais. Daí a referência às orações antes de darem início ao acto sexual para evitar a morte e à presença de percevejos, tanto na cama do rei como na da rainha. (pág. 16)
 
 
Amor verdadeiro: relação Baltasar / Blimunda
 
 
O encontro entre Baltasar e Blimunda está marcado pela crueldade do auto-de-fé, que condena ao degredo Sebastiana de Jesus, e pelo misticismo da promessa de Blimunda de que nunca «olhará por dentro» Baltasar. (págs. 53-54)
 
Blimunda amou apaixonadamente Baltasar desde o primeiro momento. O silêncio e os gestos simples, como o de deixar a porta aberta, o acender o lume, o servir a sopa, o esperar pela colher usada de Baltasar, marcam a entrega e a comunhão entre estes dois seres.
 
O casal transgride os códigos de amor estabelecidos, porque não procriam e entregam-se plenamente às carícias e jogos eróticos, sem olharem a limites, lugares ou datas… (págs. 106-107) Vivem um amor sem regras, instintivo e natural. Não há discurso amoroso, pois as palavras tornam-se desnecessárias quando o silêncio é rico de significação, quando entre os dois há apenas amor, paixão, gozo, cumplicidade, entendimento perfeito. (págs. 272-273) O tempo passa, eles envelhecem, mas o casal continua eternamente enamorado e até escandaliza a vila de Mafra. (pág. 328)
 
É o padre Bartolomeu de Lourenço que sacraliza a relação de Baltasar e Blimunda, numa cerimónia invulgar (págs. 56-57) e confirma o carácter mágico e universal do seu amor, ao desvendar o simbolismo dos nomes das personagens (pág. 92):
 
·         Baltasar Sete-Sóis / Blimunda Sete-Luas: o número sete representa a totalidade do universo, o ciclo lunar e o ciclo vital (as células humanas renovam-se de sete em sete anos), a perfeição, a plenitude.
 
 


 

O amor entre Baltasar e Blimunda está ainda ligado ao simbolismo do sangue virginal (pág.57) e da morte do frade com o espigão de Baltasar, quando aquele tenta violar Blimunda. (págs. 347-348)
 
 
Quando Baltasar desaparece, o destino de Blimunda é marcado pela procura do marido durante nove anos, e culmina com a recolha da vontade de Baltasar, quando este é condenado num auto-de-fé. A recolha da vontade simboliza a eterna união entre dois seres, a iniciação de uma outra vida em plenitude, provando que o «amor existe sobre todas as coisas». (pág. 359)
 
 

A INQUISIÇÃO / AUTO-DE-FÉ

 
 
Memorial do Convento denuncia o medo que se vivia na época devido às perseguições levadas a cabo pelo Santo Ofício. As descrições das procissões dos penitentes e das procissões religiosas, como a do Corpo de Deus, servem de crítica às mentalidades e procedimentos da época. (págs. 28-30) O comportamento do povo é sempre exagerado e primitivo («…rojam-se pelo chão homens e mulheres, arranham a cara uns, arrepelem-se outros, dão-se bofetões todos…»), o que traduz uma religiosidade de aparência, de espectáculo, e não uma verdadeira religiosidade espiritual.
 
A referência aos métodos e rituais da Inquisição serve ainda de sátira ao Clero, denunciando-se no romance a imoralidade dos comportamentos e a leviandade da expressão da fé dessa classe:
 
·         a vaidade e riqueza ostentadas pela Igreja, em vez da humildade e pobreza; (págs. 86-87)
·         o ridículo do vocabulário religioso que o povo não entende;
·         os rituais sem sentido, como a crueldade do sacrifício dos noviços; (págs. 324-327)
·         a raiva persecutória do Santo Ofício, seduzido pelos bens dos condenados; (pág. 191)
·         a ociosidade, a hipocrisia e a libertinagem da vida conventual; (pág. 95)
·         a sexualidade reprimida e criminosa; (pág. 347)
·         a profanação religiosa em vez da elevação espiritual, traduzida pelos pensamentos obscenos do patriarca. (págs. 157-158)
 
 
Ironicamente, são as forças do poder e da repressão, simbolizadas pela Inquisição, que indirectamente contribuem para o encontro entre Baltasar e Blimunda, quando a mãe desta é condenada por bruxaria. A relação amorosa torna-se, também por isso, símbolo da transgressão dos códigos morais (união pagã e erótica).
 
O padre Bartolomeu, Baltasar e Blimunda encarnam também os valores do Cristia­nismo, porque, ao longo das suas vidas, pelos seus actos e atitudes, eles corporizam o ideal da verdadeira religião cristã pela solidariedade, tolerância e respeito, pelo amor ao próximo, pela justiça. No entanto, à luz dos ensinamentos da época, eles são considerados heréticos. Afinal, é a própria Igreja que não segue os ensinamentos de Cristo. Através de uma religião imposta e obrigatória, através do medo causa­do pelo Santo Ofício, os elementos do poder (Clero e Nobreza) mani­festam o seu ódio e a sua intolerância, reprimindo, julgando, conde­nando e matando, em nome de Deus e da salvação das almas.
 
A amizade de Baltasar e Blimunda ao padre Bartolomeu e a sua colaboração na construção da passarola torna-os vítimas do Santo Ofício (possível justificação para a morte de Baltasar?). No entanto, ao recolher a vontade de Baltasar, quando este é condenado à fogueira inquisitorial, Blimunda representa simbolicamente a sobrevivência do povo contra todas as formas de repressão, a resistência à tirania dos poderosos.
 
 
 
 
 
 
 
 
 

A EPOPEIA DA PEDRA

 
 
A construção do convento
 
A construção do convento vai decorrer na vila de Mafra, como resultado do cumprimento de uma promessa do rei, ao ver assegurada a sua descendência. (pág. 14) O projecto da obra foi entregue ao arquitecto João Frederico Ludovice e é reflexo de uma época de prosperidade e riqueza devido ao ouro que chegava do Brasil. A grandiosidade do monumento justifica o facto de este se tornar símbolo da luta titânica dos homens que o construíram para satisfazer a vaidade e ambição de um rei, que pretendia erguer uma obra tão memorável como a igreja de S. Pedro de Roma. (págs. 281-282)
 
Ironicamente, perante tão grandiosa obra, o que se destaca é a vulnerabilidade do rei como ser humano: está sujeito a doenças, envelhece e tem medo da morte como o mais simples dos homens. A sua natureza adúltera revela a fraqueza da carne e até a vaidade e inveja nos revelam que o facto de ser rei não o torna imune aos pecados e aos vícios.
 
Do pavor do rei perante a perspectiva de morrer sem assistir à conclusão da sua obra, surge a determinação de dar início às cerimónias de inauguração do convento no dia 22 de Outubro de 1730, data do seu aniversário (págs. 291-293), o que implicaria a contratação coersiva de mais operários, numa manifestação do poder absolutista do rei. (págs. 293-294)
As cerimónias revestem-se de grande luxo e ostentação, confirmando a glória do rei, mas pondo também em destaque a humilhação do povo e a sua miséria. (págs. 352-353)
 
 
O transporte da pedra
 
O capítulo XIX é consagrado à saga heróica do transporte de uma enorme pedra de Pêro Pinheiro para Mafra (15 km), que se prolongaria por oito dias. É aqui que o narrador faz sobressair a força e a determinação do povo, elegendo-o como o verdadeiro herói da obra, salvando-o do anonimato. O povo é o herói que, humilhado, sacrificado e miserável, alcança uma dimensão trágica e se eleva na sua força e humanidade.
 
A gente que construiu o convento é o povo anónimo que trabalha e sofre às ordens do rei, não só para cumprir a sua promessa mas também para satisfazer a sua vaidade. É um povo humilde e trabalhador, elogiado e enaltecido pelo autor, que tenta tirá-lo do anonimato e o individualiza em várias personagens e também simbolicamente, atribuindo-lhe um nome para cada letra do alfabeto, num simples desejo de o tornar imortal e de o incluir na História de Portugal: «…Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino…». (pág. 244)
 
A descrição do transporte da pedra no carro chamado «nau da Índia» dá conta das dificuldades da viagem e inspira o tom emocional e humorístico do narrador: «…vão aqui seiscentos homens que não fizeram nenhum filho à rainha e eles é que pagam o voto, que se lixam, com perdão da anacrónica voz». (pág. 259)
 
 
A personagem colectiva: o povo
 
 
O povo que surge em Memorial do Convento assume-se como um herói atípico, descrito como deficiente, rude, feio e, às vezes, violento. (pág. 244) Os milhares de operários que humildemente sofrem e se esforçam por sobreviver durante a construção do monumento são assim resgatados nesta nova interpretação da História. Por isso, MAFRA ganha uma nova conotação que denuncia a tirania dos poderosos sobre os oprimidos, também os eleva ao simbolismo de uma verdadeira força construtora e criadora «do mundo e das verdades que o sustentam»: «…mortos, assados, fundidos, roubados, arrastados…». (pág. 297)
 
 
A narrativa encaixada de Manuel Milho
 
 
É nas horas de descanso que surge a narrativa de Manuel Milho, que ameniza o sofrimento dos homens ao longo de oito dias, distraindo-os e deixando-os curiosos para o desenlace. Assim, esta personagem popular introduz uma história que, parecendo ser uma sátira anti-monárquica, é uma reflexão profunda sobre a existência humana e sobre a possibilidade de transformação pelo sonho. (pág. 266)
 
A sua história dizia que uma rainha vivia com o rei e os filhos no palácio, porém, a rainha, ao contrário do rei, não sabia se gostava de ser rainha, pois nunca tinha sido outra coisa. Um dia, foi ter com um ermitão que vivia sozinho no monte para se aconselhar com ele. A rainha queria saber o que era preciso fazer para uma rainha se sentir mulher e um rei se sentir homem. A conversa que tiveram sobre a existência, sobre o que se é e o que se deseja ser e sobre a rebelião necessária para deixar de ser o que não se quer, foi tão profunda que a rainha se retirou para reflectir. Mas um dia a rainha desapareceu do palácio e o marido, ciumento, manda o exército à procura dos fugitivos. Não os encontraram e não se sabe se a rainha se fez mulher e se o ermitão se fez homem.
 


 

Através desta história, pode-se perceber que o difícil é ser-se homem ou mulher, integralmente, por dentro. A resposta de Baltasar, ao dizer «talvez voando», pode ajudar-nos a encontrar um caminho que passa pelo sonho, por um objectivo a atingir, ou por uma realização pessoal. (pág. 266)
 
 
 

A PASSAROLA

 
 
Os construtores da máquina de voar
 
 
PADRE BARTOLOMEU DE GUSMÃO
 
A construção da passarola é a concretização do sonho do padre Bartolomeu de Lourenço (pág. 63) que conta com o apoio económico do rei, porém, o propósito de voar, através de conhecimentos técnicos, opõe-se à mentalidade clerical da época (pág. 65) e a intolerância da Inquisição vai perturbá-lo de tal forma que acaba por fugir e enlouquecer. (págs. 194, 226)
 
A passarola introduz o universo ficcional e imaginário na obra e servirá, acima de tudo, para pôr em destaque a excêntrica e atormentada personalidade do padre Bartolomeu (pág178):
·         tem funções na corte e a amizade do rei que o protege e o incentiva nas suas experiências, cedendo-lhe mesmo a quinta de S. Sebastião da Pedreira; (págs. 161-162)
·         revela uma visão heterodoxa da fé, pondo em causa os dogmas do Cristianismo (págs. 68,173-174,189) e mostrando curiosidade por áreas do saber pouco comuns, como a alquimia; (pág. 94)
·         é vítima do desprezo da corte devido às suas ideias (pág. 64), mas acolhido com afecto e respeito por Baltasar e Blimunda. (pág. 68)
 
 
 
BLIMUNDA SETE-LUAS
 
 
Filha de Sebastiana de Jesus, que é condenada pela Inquisição ao degredo, acusada de ser visionária e cristã-nova, conhece Baltasar no dia da execução da sentença da mãe. (pág. 53) Sobre o retrato físico de Blimunda há apenas o destaque dado aos olhos. (págs. 55, 104-105). Quando está em jejum possui capacidades de vidente (págs. 79-80), conseguindo ver para além das aparências. É esse seu poder extraordinário que a aproxima da espiritualidade da arte de Scarlatti e do sonho de voar do padre Bartolomeu. O único ser que ela recusa olhar por dentro é Baltasar, porque o ama. (pág. 56)
 
Apaixonada por Baltasar, mantém para sempre uma relação de amor, de cumplicidade e de companheirismo a que não falta a atracção física revelada em jogos eróticos e de prazer. O seu encontro com Baltasar no auto-de-fé é, desde logo, abençoado pela mãe, que viu que aqueles dois tinham nascido para se completar e, mais tarde, pelo padre Bartolomeu numa cerimónia íntima e estranha. (pág. 56) A união com Baltasar confere-lhe um novo nome, uma «entidade cósmica»: Blimunda Sete-Luas.
 
Quando Baltasar parte, sozinho, para Monte Junto, para reparar a passarola e não mais regressa, Blimunda procura-o por todo o lado, numa busca dramática que dura nove anos e com um amor a que nem as chamas da fogueira inquisitorial conseguem pôr fim. (pág. 359)
 
Blimunda tem uma presença muito forte no romance, possui uma sabedoria muito própria, representa um «elemento mágico não explicado» e aprendeu as coisas sobre a vida e a morte, sobre o pecado e o amor na «barriga da mãe», onde permaneceu de «olhos abertos». (pág. 333) Talvez por isso tivesse pressentido o desaparecimento de Baltasar, denunciando-o no modo sôfrego como o amou pela última vez. (págs. 333-335)
 
 
 
 
BALTASAR SETE-SÓIS
 
 
Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, foi soldado na Guerra de Sucessão espanhola, onde perdeu a mão esquerda. (pág. 35) Em Évora, começou a pedir esmola para fazer um gancho que lhe substituiria a mão. (pág. 36) Aparece na obra como um marginal que, na luta pela sobrevivência, não hesita em matar, no entanto, a sua imagem irá agigantar-se após conhecer Blimunda e por mérito próprio, sendo reconhecido o seu contributo na construção do convento e da passarola. (págs. 37-38)
 
Ao participar na concretização do sonho do padre Bartolomeu, consegue ultrapassar a sua deficiência física e diviniza-se nessa missão. (págs. 69-70) Baltasar surge assim como símbolo da acção do homem ligada ao sonho, capaz de realizar plenamente as suas aspirações. Baltasar é humanizado e dignificado pelo trabalho que realiza de forma entusiasmada e voluntária, opondo-se assim aos operários que trabalham na construção do convento, que aparecem como escravos, já que realizam um trabalho em que não se sentem envolvidos. (pág. 294)
A construção da passarola
 
 
O padre Bartolomeu revela, desde logo, a sua preocupação com a aquisição de conhecimento, o que o leva às leituras mais diversificadas, numa ânsia de alcançar a totalidade do saber. (pág. 178) A construção da parte mecânica do engenho não traz problemas, mas é preciso descobrir a tecnologia que fará voar a máquina, o que obriga o padre a viajar para a Holanda. (pág. 94) Passados três anos, o padre regressa a Mafra com a informação de que o éter de que necessitam se alcança através das vontades dos vivos. (págs. 125-126)
 
Para voar, a passarola vai conjugar quatro tipos de saber, ligados a outras tantas personagens:
·         saber científico (o padre Bartolomeu, responsável pelo projecto da máquina de voar, irá também definir o segredo de voar através do poder de éter);
·         saber mecânico (Baltasar, com a sua força e engenho, irá construir o corpo da máquina, entrelaçando os ferros e as madeiras); (pág. 68)
·         saber sobrenatural (é o poder mágico de Blimunda que irá permitir-lhe recolher as vontades dos vivos e determinar as possíveis falhas na construção); (págs. 92, 126-127)
·         saber artístico (a música de Scarlatti permitirá a elevação do engenho). (pág. 200)
 
 
As vontades dos vivos
 
A recolha das vontades dos vivos é feita através do poder sobrenatural de Blimunda de ver o interior das pessoas. As vontades são manifestações da capacidade do homem de superar obstáculos que parecem intransponíveis. A falta de vontade traduz a fraqueza, a desistência, o desinteresse perante a vida. As duas mil vontades recolhidas por Blimunda e que são representadas por «nuvens fechadas» (pág. 126) simbolizam essa enorme força que vai ser precisa para concretizar o sonho de fazer voar a passarola. (págs. 145-146)
 
A missão de Blimunda é difícil e arriscada, ao introduzir duas mil vontades em dois frascos de vidro abertos através da pastilha de âmbar, uma vez que a obriga a uma incansável peregrinação por hospitais e procissões, e chega mesmo a tirar proveito de uma grave epidemia que grassava em Lisboa. (págs. 145-146, 180-182)
 
 
O poder da música
 
Domenico Scarlatti aceitou o convite do padre Bartolomeu para assistir à construção da passarola, certo de que a música seria um importante contributo para o funcionamento da máquina de voar. (pág. 172) No entanto, Scarlatti não poderá partilhar o sonho até ao fim, pois apenas assistirá ao início do voo da passarola em terra, tocando o cravo, enquanto as personagens se elevam no ar. (pág. 200)
 
A música surge também como fonte de vida, pois irá salvar Blimunda de uma grave debilidade que a deixou prostrada. O valor sobrenatural da música tira Blimunda de um estado de profunda inconsciência e apatia. (págs. 186-188)
 
 
A simbologia da passarola
 
A passarola materializa o sonho dos seus construtores, agentes do progresso, e simboliza a perfeição e a sabedoria do homem que possui vontade e fé para superar as suas limitações (é a conjugação das vontades que faz subir a passarola).
 
Além disso, traduz a trágica dimensão da vida humana, anunciada na tentativa do padre em pegar fogo à máquina e na sua posterior loucura (pág. 207), no desaparecimento de Baltasar e no desamparo trágico de Blimunda. (págs. 336-337)
 
A passarola simboliza também um meio de fuga de um lugar onde domina a injustiça e a prepotência. Ela veicula uma tentativa de luta contra todas as formas de intolerância e perseguição. (págs. 193-195, 197-198)
 
 
O tempo
 
O início da narrativa situa-se por volta de 1711 (pág. 21). Não havendo muitas referências temporais, há a registar, no entanto, datas importantes que permitem seguir cronologicamente a acção:
·         a bênção da primeira pedra do convento, que terá lugar a 17 de Novembro de 1717; (pág. 135)
·         o contrato de casamento dos príncipes, estabelecido em 1725; (pág. 299)
·         a sagração do convento, que terá lugar a 22 de Outubro de 1730; (pág. 352)
·         o desaparecimento de Baltasar em 1730 e o fim da narrativa, que remete para o ano de 1739. (págs. 335, 337, 355)
 
O tempo da história dura vinte e oito anos, mas o tempo do discurso abre brechas nesse período cronológico para o integrar num tempo uno, em que presente, passado e futuro se misturam. A passagem do tempo é menos sugerida por datas do que pelas transformações que opera nas personagens e nas coisas, acompanhando, por exemplo, o envelhecimento de Baltasar e Blimunda (pág. 328) e a degradação da passarola durante a ausência dos seus construtores (pág. 143).
 
O desprezo pelas datas pretende pôr em evidência a intemporalidade dos temas, nomeadamente, a denúncia de todos os mecanismos de repressão social que são comuns a todas as épocas (ver classificação tipológica do romance).
 
 
O espaço
 
Os espaços físicos privilegiados pela narrativa são Lisboa e Mafra. Dentro destes dois espaços destacam-se, em Lisboa, o Terreiro do Paço e o Rossio, lugares onde se manifesta o obscurantismo do povo e a opressão do poder, e S. Sebastião da Pedreira, local da construção da passarola, da subversão do poder. Em Mafra, sobressai o Alto da Vela, local escolhido para edificar o convento, e Pêro Pinheiro, de onde sai a pedra da varanda central.
 
Lisboa aparece como espaço social, já que é uma cidade que ilustra bem as injustiças sociais, onde uma minoria tem tudo e o povo vive na miséria (págs. 28, 88, 180), assim como Mafra, cuja construção do convento dá trabalho para muita gente, mas socialmente destrói famílias e cria marginalização.
 
 
A crítica do narrador
 
O narrador não deixa de denunciar ironicamente a opulência do rei e da nobreza, por oposição à extrema miséria do povo. (pág. 27) A sátira abrange também outros aspectos da vida social e religiosa da época:
·         o adultério e a corrupção dos costumes; (págs. 30-31)
·         a imoralidade dos frades e do próprio rei; (págs. 85, 158)
·         a repressão exercida pela Inquisição; (pág. 194)
·         a crueldade do povo que dança à volta das fogueiras inquisitoriais; (pág. 50)
·         a tirania do rei ao recrutar os operários para as obras do convento; (pág. 293)
·         a leviandade do infante D. Francisco, que se diverte a espingardear os marinheiros. (pág. 83)
 
O estatuto do narrador
 
Ao assumir diferentes pontos de vista, muitas vezes contraditórios, o narrador torna-se uma voz polifónica, garantindo a modernidade da obra. São inúmeros os momentos em que a instância narrativa desliza da 3ª pessoa do singular para a 1ª do plural, verificando-se, deste modo, uma cumplicidade com o narratário e a implicação deste na narrativa. (págs. 32, 37) Notória é também a preocupação do narrador de reflectir sobre o próprio processo de escrita, desmistificando assim o seu papel, como se verifica nos comentários metatextuais. (págs. 110, 119, 164, 341)
 
O controlo da narrativa por parte do narrador (focalização omnisciente) é facilmente verificável não apenas nos comentários valorativos ou depreciativos, nos juízos de valor e no tom moralístico que perpassa pelos inúmeros provérbios ou profecias, mas também nas advertências ao leitor: «…isto se devendo ler com muita atenção para que não escape ao entendimento.» (pág. 276)
 
O narrador opta, assim, por uma postura irreverente no modo como relata os acontecimentos evocados. O tom frequentemente irónico e sarcástico serve a intenção de parodiar o passado histórico. Mas o discurso do narrador é também anti-épico, quando rebaixa heróis que a História glorifica e nos apresenta como heróis gente anónima em que se incluem personagens com defeitos físicos, como Baltasar, ou homens andrajosos, como os operários obrigados a trabalhar na construção do Convento de Mafra.
 
 
A linguagem e o estilo
 
 
A escrita de Saramago lembra, em parte, o estilo engenhoso do Barroco e os ornamentos retóricos têm a função de captar, por meio do deleite, a atenção do leitor.
 
A obra Memorial do Convento é, pois, rica em recursos de estilo, principalmente nas descrições que são visualistas e pormenorizadas, utilizando, para o efeito, a adjectivação («...aqui vou blasfema, herética, temerária, amordaçada…» pág. 53), a hipérbole («…triste morte, foi um abalo muito grande, como um terramoto profundo que lhe tivesse rachado os alicerces…» pág. 235), a metáfora («O cântaro está à espera do fonte…» pág. 13), a ironia («…o mal é dos corpos, que a alma, essa, é perfumada…» pág. 28), o trocadilho («…o côncavo meu no teu convexo, no meu convexo o teu côncavo, é o mesmo que homem e mulher, mulher e homem…» pág. 203), a onomatopeia («…a bater a pedra, truca-truca, truca-truca…» pág. 220), a hipálage («…nem Romeu que, descendo, colhe o debruçado beijo de Julieta…» pág. 334), os jogos de palavras e conceitos («…Fala das mãos, Falo das obras, tão cedo nascem logo morrem, Fala das obras, Falo das mãos…» pág. 167).
 
São também marcas do estilo de Saramago:
·         a sátira, com recurso à ironia, à linguagem depreciativa e humorística, à subversão de citações bíblicas (pág. 159) e de provérbios *;
·         a ruptura com as regras de pontuação, introduzindo um peculiar discurso directo sem utilizar os sinais gráficos ao abolir os dois pontos, os travessões e o ponto de interrogação e ao utilizar a maiúscula após uma vírgula;
·         a presença do narrador-autor com comentários, apartes e frases sentenciosas;
·         a intertextualidade frequente, sobretudo com Os Lusíadas; (págs. 133, 295)
·         o uso de formas verbais no presente e no futuro;
·         a inclusão de um discurso argumentativo e reflexivo.
 
 
* Os provérbios e expressões populares, originais ou adaptados, introduzem, no discurso narrativo, a peculiar característica da linguagem corrente e familiar e são eco da sabedoria popular: «…o sol quando nasce, é para todos…», «…a melhor lição é sempre o bom exemplo…», «…uma mão lava a outra…», «…o hábito não faz o monge…», «…uma desgraça nunca vem só…», «…e ainda a procissão vai na praça…», «…dai a César o que é de Deus e a Deus o que é de César…», «…fazendo o bem olhando a quem…», «…mas as mulheres não se medem aos palmos…».
 
 


publicado por Isabel Marques às 23:01
Está muito bem resumido e elaborado, mas atenção: Saramago não concebia a existência de almas como consta no documento, mas de vontades. A não confundir!
Margarida Palma a 18 de Junho de 2017 às 19:42

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