Segunda-feira, 02 de Março de 2009

 

FELIZMENTE HÁ LUAR!
As personagens dramáticas
 
 
OS REVOLUCIONÁRIOS
 
GOMES FREIRE DE ANDRADE
 
·         É um homem instruído, letrado, um «estrangeirado», símbolo da integridade de carácter, da recusa da tirania em defesa dos ideais de justiça e liberdade (137). É também o símbolo da modernidade e do progresso, já que adepto das novas ideias liberais.
 
·         A sua mitificação pelo povo, que vê nele a personificação do esclarecimento, do inconformismo corajoso e da esperança na luta contra a repressão e o terror (20,24, 34), vai torná-lo num homem incómodo, subversivo e perigoso para o poder instituído.
 
·         É assumido como uma ameaça à autoridade dos governadores, gerando ódios e desejos mesquinhos de vingança (21-22,71), seja pela sua lúcida integridade moral, seja pela sua argúcia excepcional de militar, ou até mesmo pela admiração incontestável que lhe dedica o povo.
 
·         Inteligente, lúcido, capaz de ver para além da hipocrisia dos poderosos (95), mas humilde e discreto, já que nunca se serviu do seu estatuto para influenciar o povo (87).
 
·         A prova da sua inocência está na imagem que dele dá Matilde: uma conduta moral irrepreensível (83), uma coragem inabalável que o faz lutar até à morte (132), o seu sacrifício injusto, como o de Cristo (122, 130).
 
MATILDE
 
·         Amante, esposa e «companheira de todas as horas» do general, exprime romanticamente o amor (85, 132) que a faz acreditar no sentido da sua vida (92) e a ajuda a manter a esperança de o marido conseguir vencer a vilania da morte a que foi sujeito.
 
·         É o símbolo da sensibilidade feminina, que se revela no desespero da perda (97, 116, 130), no sofrimento de quem ama e se vê despojado do ser que o completa (120). O seu grito alucinado de desespero representa a necessidade de reaver o homem que o destino tornou seu (94).
 
·         Reage violentamente perante o ódio e as injustiças, desmascarando o interesse mesquinho, a hipocrisia, a traição, a manipulação perversa do poder (93, 94, 95). Revela uma inteligência subtil e uma grande capacidade de argumentação, capaz de desarmar os falsos valores dos governantes (124-126).
 
·         Corajosa, assume-se como a voz da consciência dos governantes (88), obrigando-os a enfrentar os seus actos de cobardia (118, 128-129). O seu discurso final é uma resposta provocatória à violência da sociedade e um anúncio de esperança numa nova era (136-137).
·         Profundamente humana (101), luta sempre pelos ideais que aprendeu a defender junto do marido, sejam eles o da sinceridade, o da caridade, ou o da revolta e da indignação perante a prepotência dos poderosos (90-92), destacando-se pela sua excepcionalidade num mundo de ganância e hipocrisia (85).
 
ANTÓNIO DE SOUSA FALCÃO
 
·         Símbolo da impotência perante o despotismo dos governadores (86).
 
·         A sua lealdade a Gomes Freire e Matilde é revelada na profunda admiração (89), no apoio incondicional que lhes dedica (115), acompanhando a esposa do general na angustiosa tentativa de o libertar (116-117), não poupando elogios à conduta do homem corajoso com quem partilhara sonhos e ideais (110, 136-137).
 
·         O seu sentido crítico fá-lo duvidar da justiça dos governantes e revoltar-se contra a indignidade do tratamento dado ao general durante a sua prisão (111-112).
 
·         Perante o exemplo de coragem do general, chega a reconhecer a sua cobardia e a inutilidade da sua luta (136-137), embora não se contenha e chegue mesmo a pôr em risco a sua vida ao insultar D. Miguel (119).
 
·         O destino do amigo fá-lo encontrar-se consigo próprio, a «rever-se por dentro», o que altera a sua concepção do mundo e das coisas (89, 137).
 
 
OS GOVERNADORES
 
 
·         Os três elementos que compõem o Conselho de Regência representam o poder político e todas as suas manipulações para manter uma autoridade continuamente ameaçada, porque ilegítima. São eles os chefes da conspiração, pois escolhem alguém que «valha a pena crucificar», mesmo sem provas concretas. Embora se aproximem no carácter vil e mesquinho, cada um deles simboliza diferentes interesses e invoca diferentes razões para a morte de Gomes Freire (42).
 
D. MIGUEL
 
·         É o protótipo do pequeno tirano, inseguro e arrogante, simbolizando a decadência do país que governa, minado pela hipocrisia e pela mesquinhez. O seu espírito decrépito e caduco impedem o progresso, já que acredita fanaticamente na manutenção de um governo absolutista e numa sociedade perfeitamente estratificada (69).
 
·         De carácter megalómano e prepotente, revela o seu calculismo político, a sua ambição desmedida e um egoísmo arrogante, no exercício do poder (60-61, 65-66).
 
·         Desprovido de integridade moral e corrupto, personifica a injustiça, a traição, aliada à vingança (43), pois vê na popular figura do primo uma ameaça ao seu prestígio e poder, condenando-o sem escrúpulos (70-71).
 
·         Frio, desumano, é a «personificação da mediocridade consciente e rancorosa» (71-72, 116-117). A sua crueldade revela-se perante a execução de Gomes Freire, que será exemplo para os que ousem desafiá-lo (131).
 
PRINCIPAL SOUSA
 
·         Representa o poder eclesiástico dogmático, fanático, persecutório e repressivo (69), que se deixa corromper, aliando-se perversamente aos interesses políticos (36-37, 64-65).
 
·         De carácter mesquinho e vingativo, diz odiar os franceses, os principais responsáveis pelo clima de revolta que agita o reino (39-40), e justifica a condenação de Gomes Freire por um desagravo cometido sobre um familiar (68, 72), embora tente dissimulá-la sob a forma de um acto de defesa do reino, apenas para manter a sua consciência tranquila (40, 67, 74).
 
·         A sua cobardia impede-o de manter uma discussão séria com Beresford, embora não esconda a sua animosidade pelo inglês (41, 59).
 
·         Hipócrita, o seu discurso religioso é continuamente deturpado em função dos seus interesses (36), e recorre a um tom falsamente paternalista e compreensivo (38,121), embora a sua falsidade e infâmia sejam desmascaradas por Matilde (122-123).
 
 
BERESFORD
 
·         Representa o poder calculista e o interesse material, que fazem dele um mercenário astuto e arrogante (58, 59).
 
·         De carácter trocista e mordaz, não esconde o seu desprezo pelo país onde é obrigado a viver, não desperdiçando qualquer oportunidade para ridicularizar a sua pequenez e provincianismo (55-57) e até para provocar o principal Sousa de forma irónica, porque representante de um catolicismo caduco (41, 54).
 
·         Reconhecendo ser alvo do desprezo do povo, procura a todo o custo salvaguardar o seu posto de militar, participando activamente no processo de condenação do homem que poria em risco a sua carreira, o seu prestígio e os seus privilégios (63-64). Embora sorria da corrupção generalizada que domina o país, serve-se da denúncia para manter o seu estatuto (44, 68-69).
 
·         O seu cinismo e a sua arrogante crueldade revelam-se na humilhação a que sujeita Matilde, quando esta lhe pede a vida do marido (93-94, 99).
 
 
OS DELATORES
 
VICENTE
 
·         Símbolo da falsidade, da ambição e do oportunismo (103), defende o valor do dinheiro e do poder como forma de ascender socialmente (25), ainda que o faça pela traição e pela denúncia (30-32). Hipócrita, tenta dissimular a indignidade dos seus actos através do serviço a el-rei e à Pátria (39).
 
·         Servil e materialista, procura, através da astúcia e da adulação, conquistar a simpatia dos governadores, mesmo que tenha de trair os da sua classe (34, 38).
 
·         A imoralidade e mesquinhez do seu carácter insinuam-se no seu discurso demagógico e provocador, que revela a sua revolta e desprezo por uma classe na qual se recusa a inserir (26-27). É um homem frustrado por ter nascido pobre e movido pela inveja e pelo ressentimento.
 
·         Reveste-se de um falso humanismo e de uma solidariedade duvidosa para fomentar a ira popular contra Gomes Freire (21-22). 
 
ANDRADE CORVO / MORAIS SARMENTO
 
·         Tal como Vicente, representam o grupo dos delatores, que colaboram com o regime visando o lucro pessoal (44, 47). A falta de escrúpulos e de valores éticos (43), a ganância e a preguiça, justificam a denúncia do general e a traição aos valores que defendem, nomeadamente os ideais maçónicos e o seu pretenso patriotismo (46, 48-50).
 
·         O seu carácter cobarde enuncia-se no modo como se apresentam perante os governadores, «embuçados», e a adulação é também a forma usada para cair nas graças dos poderosos (64).
 
 
O POVO
 
MANUEL
 
·         «O mais consciente dos populares» é também a voz da denúncia crítica continuamente silenciada (16), da ironia abafada pela repressão contínua das forças policiais (77).
 
·         Representa metaforicamente o povo português condenado a uma existência ignóbil, coexistindo com a miséria, a fome, a opressão, desanimado e impotente para alterar o seu destino (16, 78, 105-106).
 
·         O conformismo é a alternativa possível perante um governo decadente e fútil, que garante a sua autoridade através do medo e da violência (105-109). O cansaço de sobreviver num mundo onde a vida é um vazio é alternado com a profunda consciência das desigualdades sociais e um tocante respeito pela dor alheia (108-109).
 
RITA
 
·         A solidariedade para com Matilde é marcante (104), pois como mulher compreende a perda irremediável do amor e da família (82-83). É com comoção que a beija, depois de lhe entregar a moeda, símbolo da sua cumplicidade (110).
 
ANTIGO SOLDADO
 
·         A identidade anónima confirma a simbologia da sua personagem: reconstrói o percurso militar de Gomes Freire, lembrando o valor da luta pela liberdade, mas é também a representação do desprezo a que o regime vota os homens que se sacrificam nos seus exércitos (22).
 
·         Também ele personaliza o desalento, o pessimismo e a decepção do povo que vê adiada a possibilidade de mudança com a prisão do general (80).


publicado por Isabel Marques às 15:47

Material de apoio 1

 

Felizmente há Luar! – a fábula histórica
 

Tempo dramático – 1817 (século XIX)
 
Tempo da escrita – 1961 (século XX)
 
·         Agitação social que levou à revolta liberal de 1820:
 
-          Conspirações internas
 
-          Revolta contra a presença da Corte no Brasil e contra a situação de «colónia» do país
 
-          Contestação à influência inglesa no governo e no exército
 
-          Movimentos de revolta, ligados às lojas maçónicas e aos estrangeirados
 
 
 
·         Regime absolutista e tirânico:
 
-          A estranha ligação entre o poder político (D. Miguel, Beresford) e a Igreja (Principal Sousa)
 
-          A perseguição a todos os que denunciam a hipocrisia, a violên-cia, a injustiça, o obscurantismo, a falta de escrúpulos do Poder, e apelam à justiça e à liberdade
 
-          A censura, a repressão severa dos conspiradores, os processos sumários, a pena de morte
 
-          As redes de denunciantes, trai-dores e conspiradores que com-pactuam com o Poder
 
 
·         Os conflitos sociais:
 
-          Classes dominantes motivadas por interesses mesquinhos e pelo medo de perder privilégios
 
-          Povo oprimido e resignado à miséria, ao medo, à ignorância
 
·         A execução do general Gomes Freire
 
 
·         Agitação social dos anos 60, que levou à Revolução de 25 de Abril:
 
-          Conspirações internas, «golpes palacianos»
 
-          Revolta contra a guerra colonial, que teve início em Angola (1961)
 
-          Movimentos de contestação polí-tica e social (greves, revolta estudantil)
 
-          Protestos dos militantes comunis-tas e antifascistas, exigindo elei-ções livres e democráticas
 
 
·         Regime ditatorial de Salazar:
 
-          A amizade entre Oliveira Salazar e o Cardeal Cerejeira, e a defesa intransigente dos valores da Pátria, Família e Fé 
 
-          A Censura, a perseguição política aos contestatários do Poder (Pide), a falta de liberdade de opinião e de expressão, o exílio
 
-          A parcialidade da Justiça (prisão, medidas de repressão, tortura, condenações sem provas)
 
-          As redes de conspiradores e denunciantes («bufos») que actu-am na sombra
 
·         Conflitos sociais:
 
-          Classes privilegiadas e explora-doras, com reforço do seu poder
 
-          Povo reprimido e explorado, condenado à miséria, ao medo, ao analfabetismo
 
·         O assassinato do general Humberto Delgado, por elementos da Pide
 

 
 
 

Felizmente há Luar! – Luís de Sttau Monteiro

 
Simbologia do título
 
A frase «felizmente há luar» é proferida por duas personagens de mundos diferentes:
-          D. Miguel, símbolo do Poder (Acto II, 131)
-          Matilde, símbolo da resistência à tirania (Acto II, 140)
 
Luar
 
-          Para D. Miguel, o luar permitirá que o clarão da fogueira atemorize todos os que querem lutar pela liberdade, confirmando assim o efeito dissuasor e exemplar das execuções perante aqueles que ousassem desafiar a autoridade dos Governadores (a noite é mais assustadora, as chamas poderiam ser vistas em toda a cidade, o luar convidaria toda a gente a assistir ao castigo).
 
-          Para Matilde, o luar sublinhará a intensidade do fogo, que simboliza a coragem e a força de um homem que morreu pela liberdade e, por isso, se torna símbolo do esclarecimento e da revolta contra a tirania (anúncio da revolução liberal / 25 de Abril?). 
 
-          A lua, porque privada de luz própria e sujeita a fases, representa a periodicidade e a renovação, a transformação. Ela é também o símbolo da passagem da morte para a vida (durante três noites em cada ciclo lunar desaparece, para voltar a surgir).
 
Fogo
 
-          A fogueira acaba por ter um carácter redentor, simbolizando a purificação, a morte da «velha ordem», a vida e o conhecimento. O fogo traduz a chama que se mantém viva e a fé na liberdade que há-se chegar («Julguei que isto era o fim e afinal é o princípio. Aquela fogueira, António, há-de incendiar esta terra!», 140).
 
-          Na perspectiva dos Governadores, o fogo traduz a destruição, o castigo de todas as tentativas de rebelião do povo em prol da liberdade.
 
Luz / noite
 
-          A luz traduz a caminhada da sociedade em direcção à liberdade, vencendo o medo e a insegurança da noite, recusando a violência e a repressão.
 
-          A noite (escuridão, trevas), por contraste, representaria a morte, a repressão, a violência, o castigo, o obscurantismo, a conspiração.
 
 
O carácter apoteótico e trágico
 
 
A dimensão trágica
 
A obra de Sttau Monteiro, pela reflexão que faz do destino do homem, enquanto membro de uma sociedade, sujeito às suas normas e valores, lembra a tragédia clássica, nomeadamente pelos elementos seguintes:
 
-          O carácter excepcional das personagens:
§ Gomes Freire, pela coragem, determinação e defesa intransigente dos ideais de justiça e liberdade
§ Matilde, pela nobreza moral, pela grandeza dos seus sentimentos e pela progressiva consciencialização do seu dever de verdadeira patriota
 
-          A simplicidade da acção e o despojamento cénico
 
-          O desenlace trágico: o martírio e morte de Gomes de Freire
 
 
 
A dimensão apoteótica
 
-          O clima apoteótico da obra é recriado através da fogueira onde Gomes de Freire é martirizado que, em vez de ser dissuasora, torna-se inspiração para que outros lutem pela liberdade:
Matilde: Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina! Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim... (140)
 
-          Assim, o sacrifício do general é também uma homenagem à sua heróica defesa da liberdade, um símbolo de esperança para o povo oprimido e um apelo à transformação da sociedade (o ambiente mágico e espectral que a execução recria garante uma interpretação simbólica da noite, a traduzir a opressão, a violência, o obscurantismo, e da luz, como representação do esclarecimento, da liberdade de expressão e opinião).
 
Matilde: Julguei que isto era o fim e afinal é o princípio. Aquela fogueira, António, há-de incendiar esta terra! (140)
 
-          No final, o espectador percebe que os acontecimentos a que assistiu são de todos os tempos, pois é o próprio homem que está em causa e a obra torna-se, assim, épica.
 
 
 
O teatro épico (inspiração de Bertolt Brecht)
 
 
A obra de Sttau Monteiro, à semelhança do que acontece com a de outros escritores, como Bernardo Santareno (O Judeu) e José Cardoso Pires (O render dos heróis), aparece nitidamente influenciada por linhas dramáticas inovadoras, não só pelo suporte histórico da intriga, mas também pela relação que pretende estabelecer com o espectador, que deve assumir um papel testemunhal e crítico face aos acontecimentos apresentados em palco para mais lucidamente intervir e transformar a sociedade em que está inserido.
 
 
A fábula histórica
 
 
-          Sttau Monteiro recupera acontecimentos que marcam o início do século XIX, para servirem de denúncia da situação social e política do país dos anos 60, em plena ditadura salazarista. Assim, as primeiras manifestações sociais e políticas, que levaram à revolução liberal de 1820, servem também como denúncia da miséria, da opressão e da injustiça que dominam o Portugal da década de sessenta. O martírio de Gomes Freire é também o do general Humberto Delgado, silenciado pelo regime, porque símbolo do protesto e do inconformismo face à ditadura. Ao evocar situações e personagens do passado, o autor tem um pretexto para falar do presente.
 
-          A revolta dos mais esclarecidos, muitas vezes organizados em sociedades secretas (lojas maçónicas), contra o poder absolutista e tirânico dos Governadores, que culminará na morte de Gomes Freire, herói que reclama o direito do povo à dignidade e à indignação contra os poderosos, é também o apelo à revolta dos militantes antifascistas que puseram em causa o Estado Novo.
 
-          A obra exprime assim a revolta contra o Poder e a convicção de que é necessário mostrar o mundo e o homem em constante devir. Defende as capacidades do homem que tem o direito e o dever de transformar o mundo em que vive.
 
-          Esta forma de teatro também denuncia um dos dramas da criação literária durante o Estado Novo: a censura.
 
 
Análise crítica da sociedade
 
 
-          Ao mostrar a realidade, em vez de a representar, o drama épico leva o espectador a reagir criticamente e a tomar posição. Este, enquanto elemento de uma sociedade, assume a sua posição testemunhal, interpretando, reflectindo e julgando os acontecimentos apresentados.
 
-          O espectador pode assim analisar e julgar o homem no seu devir histórico, na sua situação social, podendo modificar-se e modificar o curso da história.
 
 
A técnica da distanciação
 
 
-          À semelhança de Brecht, Sttau Monteiro propõe um afastamento do espectador perante a história narrada, para que, de forma mais autêntica, possa emitir juízos críticos sobre a realidade apresentada em palco. Ao contrário do teatro clássico, o drama épico não procura criar um efeito hipnótico sobre o espectador, inspirando-lhe emoções e sentimentos, como o terror e a piedade (catarse), mas antes torná-lo uma voz activa no julgamento da própria sociedade em que se insere.
 
-          A identificação com o herói desperta emoções, transporta o espectador para o universo fictício do palco, mas prejudica a visão crítica do público, tornando-o incapaz de uma análise objectiva da acção. A exposição em palco de formas erradas ou alienadas de vida levarão o espectador a descobrir a sua situação no mundo e a encontrar formas de combater as injustiças sociais.
 
 
A função pedagógica
 
 
-          O teatro assume, assim, uma finalidade pedagógica, já que move o espectador a intervir lúcida e criticamente sobre a realidade social em que vive, incita-o a actuar e alerta-o para a condição humana, de modo a que se aperceba de todas as formas de injustiça e opressão.
 
 
A intemporalidade da obra
 
 
-          Fazendo a ligação entre dois momentos históricos (séculos XIX e XX), a intemporalidade da obra remete para a luta de sempre do ser humano contra a tirania, a opressão, a traição, a injustiça e todas as formas de perseguição. Felizmente há luar! põe em destaque a preocupação do homem com o seu destino, em luta contra a miséria e a alienação, denunciando a ausência de moral e de liberdade... O homem é, assim, colocado perante o desafio de se conhecer e de conhecer o mundo em que se insere («Todos sonhos chamados, pelo menos uma vez, a desempenhar um papel que nos supera. É nesse momento que justificamos o resto da vida, perdida no desempenho de pequenos papéis indignos do que somos.» 89)
 
 
Estratégias para a criação de um teatro épico
 
 
-          O efeito de distanciação entre a realidade apresentada em palco e o espectador, para garantir a capacidade de observação crítica deste, é conseguido através de vários recursos cénicos, como as didascálias, as personagens e o cenário.
 
-          As didascálias apresentam uma orientação precisa de leitura, claramente subjectiva, sugerindo ao espectador/leitor a construção de sentidos que ultrapassam o gozo estético e literário da obra. O dramaturgo convida o espectador/leitor a assumir uma atitude empenhadamente crítica e distanciada face aos acontecimentos que lhe são apresentados:
 
 
§ O público tem de entender, logo de entrada, que tudo o que se vai passar em palco tem um significado preciso. Mais: que os gestos, as palavras e o cenário são apenas elementos duma linguagem a que tem de adaptar-se. (15)
 
§ Pretende-se criar desde já, no público, a consciência de que ninguém, no decorrer da peça, vai esboçar um gesto para o cativar ou para acamaradar com ele. (O réu não se senta aio lado dos juízes.) (16)
 
 
-          As personagens desdobram-se em várias «personalidades» ou assumem várias «máscaras», o que impede a integridade, a consistência ou coerência dos seus gestos e valores, mas também a própria identificação do espectador com essas personagens ou figuras fictícias. Veja-se, por exemplo, a simulação de Vicente, que recusa a sua origem humilde e revela as suas mesquinhas ambições (27), e a de Manuel, que representa simultaneamente o papel de mendigo e de fidalgo petulante (78-79).
 
-          próprio cenário, despojado e pobre em recursos cénicos evita que o espectador se deixe envolver com os dramas apresentados e interprete toda a organização cénica como simbólica: as cadeiras (opulência e autoridade dos governantes) contrastam com as ruas (miséria e opressão do povo, sempre vigiado pela polícia).


publicado por Isabel Marques às 15:43
Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

 

Articuladores do Discurso
 
§As frases podem ser ligadas através de articuladores discursivos ou conectores.
§Os articuladores discursivos são palavras ou expressões que sequencializam as ideias e estabelecem relações entre elas.
§Algumas conjunções e locuções coordenativas e subordinativas são utilizadas como articuladores do discurso.
§A compreensão global de um texto é facilitada pela utilização dos articuladores discursivos.
§A utilização incorrecta dos articuladores do discurso poderá ter como consequência a produção de um discurso ilógico, absurdo e confuso. Devem, pois, seleccionar-se correctamente de acordo com a intencionalidade do texto que se constrói, visando a sua coerência, clareza e objectividade da mensagem.
 

Adição
Certeza
Conclusão
Dúvida
Esclarecimento
Fim
§E
§Pois
§Além disso
§E ainda
§Não só … mas também
§Por um lado … por outro
 
§É evidente que
§Certamente
§Decerto
§Com toda a certeza
§Naturalmente
§Evidentemente
§Portanto
§Logo
§Enfim
§Em conclusão
§Concluindo
§Em suma
§Finalmente
§Em jeito de conclusão
§Talvez
§É provável
§É possível
§Provavelmente
§Possivelmente
§Porventura
 
§(não) Significa isto que
§Quer isto dizer
§Não se pense que
§Com isto (não) pretendemos
§Para
§Para que
§Com o intuito de
§A fim de
§Com o objectivo de
 
Causa
Consequência
Chamada de Atenção
Ênfase
Exemplo
Hipótese/ Condição
§Pois
§Pois que
§Porque
§Por causa de
§Dado que
§Já que
§Uma vez que
§Porquanto
§Na medida em que
§Por tudo isto
§ De modo que
§Tanto… que
§De tal forma que
 
§Note-se que
§Atente-se que
§Repare-se que
§Veja-se
§Constate-se
§Efectivamente
§Com efeito
§Na verdade
§Como vimos
§Por exemplo
§Isto é
§Como se pode ver
§É o caso de
§É o que se passa com
§Se
§A menos que
§Supondo que
§Admitindo que
§Salvo se
§Excepto
Ligação espacial
Ligação temporal
Opinião
Oposição/ restrição
Reafirmação/ resumo
Semelhança
§Ao lado
§Sobre
§À esquerda
§No meio
§Naquele lugar
§O lugar onde
§Após antes
§Depois
§Em seguida
§Seguidamente
§Até que
§Quando
§A meu ver
§Estou em crer que
§Em nosso entender
§Parece-me que
§Mas
§Apesar de
§No entanto
§Porém
§Contudo
§Todavia
§Por outro lado
§Não obstante
§Em contrapartida
§Por outras palavras
§Ou melhor
§Ou seja
§Em resumo
§Em suma
§Do mesmo modo
§Tal como
§Assim como
§Pela mesma razão

 


publicado por Isabel Marques às 20:07
Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

 

Escola Secundária C/ 3.º Ciclo EB Joaquim de Araújo Penafiel
(cód. 402485)
 
 
Classes de Palavras
 
  • O Vocabulário / Léxico é o conjunto de todas as palavras (= vocábulos) pertencentes a uma determinada língua falada ou escrita. Estas palavras pertencem a diferentes classes gramaticais. Há dez classes gramaticais:
Classes Abertas:
São constituídas por um número potencialmente ilimitado de palavras e à qual a evolução da língua acrescenta constantemente novos membros. É praticamente impossível enumerar todos os membros de uma classe aberta de palavras num dado momento da evolução da língua.
Nomes
Nomes de pessoas, animais, objectos, ideias, sentimentos, qualidades.
Ex.: João, rapaz, baralho, ideia, amor.
Verbos
Palavras que indicam acções, qualidades ou estados de um sujeito.
Ex.: ele aplaude (acção); ele é simpático (qualidade); ele está doente (estado).
Adjectivos
Palavras que caracterizam os nomes.
Ex.: o rapaz capaz, uns alunos inteligentes, a ideia genial.
Interjeições
Têm uma função exclusivamente emotiva, por isso o valor de cada interjeição depende do contexto de enunciação e corresponde a uma atitude do falante ou enunciador.
Ex.: De alegria: ah!, oh!, .../ De animação: eia!, vamos!, .../ De aplauso: bravo!, viva!, .../ De desejo: oh!, oxalá!, .../ De dor: ai!, ui!, ...
Advérbios
Palavras que caracterizam os verbos, adjectivos ou outros advérbios.
Ex.: aplaudir fortemente; dar pouco; muito bem.
Classes Fechadas:
São constituídas por um número limitado (normalmente pequeno) de palavras e à qual a evolução da língua só muito raramente acrescenta novos membros. É normalmente fácil enumerar todos os membros de uma classe fechada de palavras.
Preposições
Palavras que estabelecem ligação entre duas palavras (dois substantivos, um substantivo e um verbo, dois verbos).
Ex.: poço de petróleo; salto em altura; ir à praia.
Conjunções
Palavras que estabelecem ligação entre duas orações (podem estar entre as duas orações, mas também podem estar no início da frase).
Ex.: A mulher fala e os homens ouvem. / Joana despede-se do amigo porque o pai está à sua espera.
Determinantes
Palavras que estão sempre à esquerda de um nome e têm o mesmo género e número desse nome.
Ex.: o João, outro rapaz, uns lápis.
Pronomes
Palavras que substituem os nomes, evitando a sua repetição contínua.
Ex.: este, ele, aquele.
Quantificadores
Palavra ou locução cujo significado expressa informação relacionada com número, quantidade ou parte. Os quantificadores podem ser ainda usados para expressar informação de natureza quantitativa sobre expressões que não denotam entidades, mas sim situações.
Ex.: Todos os livros foram vendidos./A maioria dos livros foi vendida.
Comprei um litro de leite. (a expressão “um litro de” quantifica sobre o nome “leite”, fazendo uma medição) / Fumo poucas vezes.
 
  • Nestas dez classes de palavras existem palavras variáveis, ou seja, cuja forma varia. As palavras podem variar em género, número, grau, tempo, etc. As palavras invariáveis têm sempre a mesma forma. A variação da forma das palavras chama-se flexão.
 

Classes de Palavras Variáveis
Classes de Palavras Invariáveis
§   Nome
§   Determinante
§   Pronome
§   Adjectivo
§   Verbo
§   Quantificador
§   Advérbio
§   Preposição
§   Conjunção
§   Interjeição
 

 
  • Classificar morfologicamente as palavras é indicar a classe gramatical a que pertencem. Ex.: O pardal ladino não saía do ninho.
O                                                   determinante artigo definido, masculino, singular;
pardal                                            nome comum, masculino, singular;
ladino                                            adjectivo no grau normal, masculino, singular;
não                                                advérbio;
saía                                               verbo “sair” na 3ª p. do sing., no Pret. Imperf. do Ind.;
do                                                 contracção da preposição de com o det. art. def. o;
ninho                                             nome comum, masculino, singular.
 
EXERCÍCIOS:
 
1-       Presta atenção às palavras sublinhadas no texto em baixo e regista a classe gramatical a que pertencem.
 
(...) Sou uma árvore grande, com tantos braços que nem os posso contar. Já não posso dizer quantas vezes vi cair as minhas folhas amareladas e nascer outro manto verde e brilhante.
Sou uma árvore de um dos jardins de Lisboa e gosto de aqui estar.
Quando eu era pequena, crescia, juntamente com outras árvores, num local a que os homens chamam viveiro. Um dia foram buscar-me. Desenterraram-me, embrulharam-me as raízes ainda pequenas e meteram-me numa camioneta. Trouxeram-me para aqui, para este jardim.
Eu pouco mais alta era que um homem, e muito delgada. Colocaram junto a mim um apoio – uma estaca, disseram os jardineiros – e amarraram-me a ela.
Eu, árvore nova, saída do viveiro, estava deslumbrada e temerosa.
Sentia-me importante, crescida, por me terem trazido para aqui, mas ao mesmo tempo tinha medo... Era a primeira vez que me encontrava sozinha, e as minhas cinco ou seis folhas verdes e frágeis, na ponta dos meus dois únicos braços de então, não me davam grande segurança. (...)
Margarida Ofélia, História de uma história e outros


publicado por Isabel Marques às 15:16

Mar Português / Episódio da Praia de Lágrimas

 

 
 
 
 
 
 
Mar Português evoca o sofrimento e a tragédia que a aventura marítima implicou.
 
 

 

 

O Mar surge como representação simbólica do perigo, dos medos e dos obstáculos impostos à iniciativa humana («perigo», «abismo»).
 
O Mar é também símbolo do conhecimento, da verdade a que o ser humano aspira e, por isso, os heróis que superaram os seus próprios limites atingirão a sua grandeza e imortalidade («o céu»).
 
 
 

As grandes dores são o preço a pagar pelas grandes glórias. O sal é, assim, o símbolo da tragédia e da dor que os descobrimentos implicaram.
 
 
Há na aventura marítima do povo português um sentido simultaneamente heróico («...passar além do Bojador...») e trágico («...lágrimas de Portugal!»).
Assim, na primeira estrofe, o poeta invoca os sacrifícios necessários à conquista do mar (mães, noivas, filhos), mas na segunda diz que o esforço é válido, porque «tudo vale a pena se a alma não é pequena». Tudo vale a pena para atingir o ideal sonhado.
 
A figura de Deus surge de novo a representar a Vontade suprema que inspira a heroicidade do povo português. O tom épico reafirma-se na conquista do «mar português» através da dor e da glória.
 
 
 
Recursos de Estilo
 
 
-          A apóstrofe inicial contribui para a personificação do Mar, enquanto obstáculo à vontade humana de conhecer e revelar o seu mistério, surgindo como monstro vingador.
 
-          As exclamações confirmam o tom épico do poema, valorizando todos os heróis que se distinguiram não só pela ousadia mas também pelo espírito de sacrifício.
 
-          As metáforas «cruzarmos», «Bojador», «sal» e «céu» traduzem as noções de «sacrifício», «perigo», «dor» e «conhecimento / imortalidade», respectivamente.
 
-          A repetição («quantas») acentua o dramatismo da situação evocada ( a distância, o receio, a ansiedade dos que ficaram).
 
 

 
A PARTIDA DA NAUS (IV, 84, 93)
 

O tema do Episódio Praia de Lágrimas é a partida dos navegantes da praia do Restelo e a despedida dos seus familiares e amigos.
 
A consternação era geral na cidade e a bordo: tinha-se a noção dos perigos, de que o caminho era tão longo e duvidoso, de que, muito provavelmente, os que partiam não iriam regressar.
 
Deste clima de consternação davam conta as mulheres cum choro piadoso e os homens com suspiros que arrancavam. Particularmente débeis eram, contudo, as mulheres: Mães, esposas, irmãs, que o temeroso/ Amor mais desconfia acrecentavam/ A desesperação e frio e medo/ de já nos não tornar a ver tão cedo.

 

Estruturação do Episódio
 

1ª Parte
 
(84 a 86)
Antes da partida dos navegadores da praia do Restelo e da reacção saudosa dos que ficavam, descreve-se o alvoroço geral dos últimos preparativos da viagem e a oração dos nautas na ermida de N.ª Sr.ª de Belém.
 
 
 
2ª Parte
 
(87 a 92)
O narrador assinala o ajuntamento da multidão constituída por amigos, curiosos e religiosos para a procissão do adeus, enquanto os marinheiros se encaminhavam desde o santo templo até aos batéis, pelo meio da gente da cidade.
Tanto os que partiam como os que ficavam se entristeciam e a despedida atinge grande emotividade.
 
Depois das lamentações a nível geral (mulheres, mães, esposas, irmãs), seguem-se as individuais, destacando-se:
 
Uma velha mãe, símbolo da velhice abandonada, chora a partida do filho, seu único amparo, para uma morte certa.
 
Uma esposa interroga, queixa-se e, de certo modo, acusa, dominada pelo receio de perder para sempre o seu amor.
3ª Parte
 
(93)
Por determinação de Vasco da Gama, o embarque faz-se sem as despedidas habituais, para diminuir o sofrimento dos que partiam e dos que ficavam.
 
 

 
Sucedem-se as lamentações, agora a nível geral, dos velhos e das crianças, enquanto os montes reflectiam, em eco, todo este clamor humano e as areias se orvalhavam de tantas lágrimas que igualavam o seu número.

...Ó doce e amado esposo,
Sem quem não quis Amor que viver possa,
Porque is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha e não é vossa?
 


 

A natureza associa-se a uma dor à escala cósmica.
 
Os montes de mais perto respondiam,
Quase movidos de alta piedade;
A areia branca as lágrimas banhavam…
O DISCURSO DO GIGANTE ADAMASTOR
 
 

INTENCIONALIDADE DO DISCURSO
 
ELEMENTOS TEXTUAIS
 
§ O Gigante começa por reconhecer a valentia e o valor heróico dos portugueses, manifestados quer em cruas guerras, quer na ousadia de se lançarem à descoberta dos mares nunca de antes navegados.
 
 
...Ó gente ousada, mais que quantas/ No mundo cometeram grandes cousas,/ Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,/ E por trabalhos vãos nunca repousas... (41)
 
Pois os vedados términos quebrantas/ E navegar meus longos mares ousas... (41)
 
 
§ O Gigante pretende demover os portugueses da viagem empreendida, anunciando que os segredos do mar («os vedados términos do húmido elemento») jamais foram concedidos aos humanos, pelo que os nautas seriam castigados por tal transgressão.
 
 
Pois vens ver os segredos escondidos/ da natureza e do húmido elemento,/ A nenhum grande humano concedi-dos…(42)
 
Ouve os danos de mi que apercebidos/ Estão a teu sobejo atrevimento... (42)
 
 
§ O Gigante anuncia os castigos e perdições de toda a sorteque estão destinadas aos portugueses, por terem desafiado os limites impostos à sua condição pelos elementos da natureza.
 
Sabe que quantas naus esta viagem/ Que tu fazes, fizerem, de atrevidas,/ Inimiga terão esta paragem,/ Com ventos e tormentas desmedidas! (43)
 
...em vossas naus vereis, cada ano (...) Naufrágios, perdições de toda a sorte,/ Que o menor mal de todos seja a morte. (44)
 
 
§ O Gigante faz agora referência a casos concretos das duras vinganças que irão cair sobre personalidades ilustres portuguesas.
 
ê
 
Vasco da Gama remove o futuro funesto anunciado por Adamastor através da oração a Deus.
Armada de Pedro Álvares Cabral – E da primeira armada que passagem/ Fizer por estas ondas insofridas,/ Eu farei de improviso tal castigo,/ Que seja mor o dano que o perigo! (43)
 
D. Francisco de Almeida – E do primeiro ilustre (...) Serei eterna e nova sepultura... (45)
 
Família Sepúlveda – Outro também virá (...) E consigo trará a fermosa dama (...) Triste ventura e negro fado os chama. (46)
 

O Adamastor apresenta-se como senhor do mar desconhecido («meus longos mares»), ameaçando os portugueses que queriam devassar os seus domínios secretos, e profetizando para eles castigos futuros.
 
ê
 
Além do anúncio dos castigos que estão reservados aos portugueses, faz-se a
glorificação da sua confiança e ousadia, que nem as tormentas ou ameaças
conseguirão impedir de triunfar (glorificação épica).

O MOSTRENGO – Mensagem

 

 
 
 
 
 
 
Caracterização do Mostrengo
 
-          Surge na “noite de breu”, rodeado de mistério, emergindo do “fim do mar”, numa atitude ameaçadora perante os marinheiros portugueses (“ergueu-se a voar”; “voou três vezes a chiar”; “roço”; “três vezes rodou”).
-          É uma figura aterradora (“À roda da nau voou (...) a chiar...”), gigantesca e repugnante (“Três vezes rodou imundo e grosso...”).
-          O seu discurso é violento e agressivo, carregado de mistério e terror (“Quem é que ousou entrar/ Nas minhas cavernas que não desvendo/ Meus tectos negros do fim do mundo?”).
 
Valor simbólico
 
-          Representa simbolicamente os medos, os perigos e as ameaças do mar tenebroso (“Meus tectos negros do fim do mundo?/ E escorro os medos do mar sem fundo?”)
-          É uma recriação fantástica do desconhecido que os marinheiros portugueses tiveram de enfrentar.
 
Comportamento das personagens e motivos que o determinam
 
Mostrengo:
-          Surge agressivo, ameaçador, insinuando vingar-se dos navegadores portugueses pela ousadia de devassarem os seus “tectos negros” e as “cavernas” que não desvenda.
-          Ameaçado na sua autoridade sobre o mar desconhecido (“Quem vem poder o que só eu posso?”), o monstro “escorre os medos do mar sem fundo”.
 
Homem do leme:
-          Responde inicialmente de forma tímida e amedrontada perante a arrogância do monstro (“E o homem do leme tremeu...”).
-          Posteriormente irá revelar a sua coragem, quando afirma que a vontade do seu povo é superior ao seu medo (“E mais que o mostrengo que me a alma teme (...) Manda a vontade, que me ata ao leme...”).
-          Revela a sua determinação de prosseguir a rota traçada por El-Rei D. João II, não obstante o imenso terror incutido pelo monstro voador (sugestão de um destino a cumprir, não só individual como colectivo).
 
Tom épico do poema
 
-          Através do “homem do leme”, faz-se, assim, a homenagem ao herói português que luta contra o que é humanamente impossível vencer, o “mar sem fundo”, símbolo de todos os medos e perigos (“Aqui ao leme sou mais do que eu:/ Sou um Povo que quer o mar que é teu (...) Manda a vontade, que me ata ao leme,/ De El-Rei D. João Segundo!”)
 
A Ilha dos Amores – Simbologia
 

 
O prémio da IMORTALIDADE
 
A Ilha dos Amores, no contexto simbólico de Os Lusíadas, nada mais é do que o «prémio, lá no fim, bem merecido», das «deleitosas honras» que cabem aos nautas portugueses pela superação dos «trabalhos tão longos» da viagem.
 
A consagração dos heróis que engrandeceram a pátria com o seu esforço e ousadia e revelaram a virtude do seu carácter é confirmada pela sua divinização ou imortalização (…esforço e arte / Divinos os fizeram, sendo humanos…»), na ilha mágica.
 
A consagração mítica dos navegadores portugueses serve assim como uma resposta perfeita ao pessimismo das palavras do Velho do Restelo, já que a «fraca carne humana», de que todos os heróis são feitos, se diviniza.
 
A consagração do AMOR
 
Numa vertente mais humanística, Camões concebe para os nautas portugueses a recompensa da árdua aventura, através da ligação amorosa entre estes e as Ninfas. O Amor é aqui assumido pelo poeta como um sentimento supremo, cuja vivência física e espiritual poderá harmonizar o universo e dignificar o homem, fazendo-o superar os próprios deuses.
 
 
O caminho para a DIVINIZAÇÃO
 
O poeta aconselha todos os que pretendam atingir a suprema honra e imortalidade, dizendo que para tal é necessário:
 
-          despertar do «ócio ignavo» que escraviza a alma;
-          refrear a cobiça e a ambição;
-          recusar o «torpe e escuro vício da tirania»;
-          ser justo, não dando aos grandes o que é dos pequenos;
-          bater-se na guerra contra os mouros em defesa da fé cristã;
-          apoiar e defender o Rei e o Reino, seja pela palavra («conselhos bem cuidados»), seja pela acção militar.
 
 


 

«Sereis entre os Heróis esclarecidos»
 
A mitificação da VIAGEM

 


 

O Homem, «bicho da terra» tão pequeno, conseguiu conquistar o mar que o transcendia, vencendo as forças personificadas pelos deuses. Conseguiu isso pela ousadia, pelo estudo, pelo sacrifício, por querer superar-se a si próprio e «ir mais longe».
 
 


 

Mais do que o explorar dos mares, a viagem resulta da passagem do conhecido para o desconhecido, por isso, aqueles que tiveram o privilégio de contemplar a «máquina do mundo», simbolizam a curiosidade humana pelo Conhecimento e a procura da suprema harmonia do Universo (Saber – Amor – Harmonia / valores humanistas e renascentistas).


publicado por Isabel Marques às 15:14

Intertextualidade   Nevoeiro / Considerações Finais do Poeta (canto X)

 
O Encoberto,  Mensagem
 
A terceira parte de Mensagem, O Encoberto, traduz a imagem de um Império moribundo, mas também a fé de que a sua morte contenha em si o gérmen da ressurreição, capaz de provocar o nascimento do império espiritual, moral e civilizacional - o Quinto Império.
 
A desintegração do Império sugere um presente de sofrimento e de mágoa, pois «falta cumprir-se Portugal», mas anuncia-se profeticamente uma nova eraÉ a hora!»).
 

Nevoeiro
Linhas temáticas
 
O poema é uma representação do estado de decadência, de incerteza e indefinição em que se encontra Portugal, que se caracteriza pela ausência daquilo que define uma nação (rei, lei, paz, guerra) e também pela ausência de ideais definidos («ninguém sabe», «ninguém conhece», «tudo é incerto e derradeiro»).
 
Simbologia
 
Enquanto símbolo de estagnação e obscuridade, o nevoeiro representa uma pátria moribunda, num profundo marasmo, mas uma vez dissipado, pode sugerir a esperança que se renova numa época de esplendor e grandeza - «(Que ânsia distante perto chora?)»
 
 
Considerações do Poeta
 
Os Lusíadas (Canto X)
 
 
 
 

Em jeito de apelo e incitamento, o poeta aconselha o rei D. Sebastião a dar continuidade à obra grandiosa do povo português, facto já profetizado («… e o vosso peito / Dina empresa tomar… / Como a pressaga mente vaticina / Olhando a vossa inclinação divina…»).
Linhas temáticas
 
Numa atitude pedagógica, o poeta louva os Portugueses, pela grandeza da sua aventura gloriosa, mas também os censura de forma contundente. Acusa-os de ignorância e de desprezo pelas artes, alerta-os para os perigos da decadência da pátria resultantes do menosprezo da cultura, e lamenta a indiferença e a insensibilidade daqueles que não lhe dão o devido valor.
 
Críticas do poeta
 
-          Confessa estar cansado de «cantar a gente surda e endurecida», que não valoriza a cultura nem as artesO favor com que mais se acende o engenho / Não no dá a Pátria…»);
 
-          Denuncia o estado de decadência da pátria, que «está metida no gosto da cobiça e na rudeza»;
 
-          Reconhece a perda da grandeza nacional, nesta época de «apagada e vil tristeza»;
 
-          Lamenta a falta de reconhecimento do seu génio, resultante do «honesto estudo», com «longa experiência misturado», por parte dos seus contemporâneos.
Mensagem - O dos Castelos
 

 
Assunto
 
A Europa surge como figura antropomórfica, de olhar «esfíngico e fatal», cujo rosto sugere a geografia de um país: Portugal.
 
Há, nesta visão simbólica do velho continente, importantes referências geográficas e culturais:
-          a posição de centralidade de Portugal na Europa, contribuindo para a unificação do Oriente e Ocidente («De Oriente a Ocidente...»; «Aquele diz Itália (...) Este diz Inglaterra...»);
 
-          a sua base cultural, apoiada na cultura gregaOlhos gregos...»);
 
-          o papel dinamizador de Portugal na missão civilizacional que desempenhou no passado, fitando os mares e o mundo, para os dominar («O rosto com que fita é Portugal.»).
 

Simbologia

 
A postura estática da Europa («De Oriente a Ocidente jaz, fitando...») parece invocar um presente de estagnação ideológica que só um novo alento de aventura pode superar.
 
O continente europeu, símbolo de um passado de glória e de descobrimento, assume agora uma atitude de expectativa em relação a um futuro que se prende com a renovação do ideal heróico: «O Ocidente, futuro do passado».
 
 Cabe, por isso, a Portugal, conduzir de novo a Europa e o Mundo à construção de um império do espírito – o V Império (confirmação do nacionalismo profético que percorre toda a obra).
 
 
Recursos expressivos
 
-          A presença de conceitos que evocam uma noção de estatismo, a representar a inércia cultural que marca o presente europeu: «jaz»; «posta»; «pousado»; «sustenta»; «apoia»;
 
-          A expressividade dos adjectivos, na alusão às bases culturais do continente europeu: «gregos»; «românticos» e sugerindo a inevitabilidade de um destino que cabe a Portugal cumprir: «esfíngico»; «fatal»;
 
-          O paradoxo, que põe em destaque a missão profética do «super-Portugal»: «O ocidente, futuro do passado
 
Análise do Poema Nevoeiro
 
Lê e completa o esquema.

Ó PORTUGAL, HOJE ÉS NEVOEIRO...
 

 
 

 
 
Expressão metafórica de uma Pátria moribunda e em decadência, onde reinam a incerteza, a dispersão, a inércia, apagando-se no marasmo do esquecimento.

 
 
 
 
 

 
Crise política

 
 
 
 
 
 

 
Crise de valores

 
 
 
 

 
Crise de identidade

 
 
 
 

 
 
A ruína e desagregação moral da Pátria, a sua indefinição, trazem já consigo uma possível redenção.

 
 
 
 
 

O mito messiânico de cariz sebastianista manifesta-se sempre em momentos de crise e desânimo nacional, e afirma-se como esperança numa nova era de grandeza e prestígio.
 
 
É A HORA!

 
 
 
 
 
 
 
 
 

1         Identifica o valor simbólico do conceito «nevoeiro» e justifica a tua resposta.
2         Relaciona agora esse conceito com o mito sebastianista que atravessa toda a obra.
3         Confirma o apelo nacionalista presente no poema.
4         Explica a expressividade da antítese «Que ânsia distante perto chora
 



publicado por Isabel Marques às 15:12

 

Escola Secundária C/ 3.º Ciclo EB Joaquim de Araújo Penafiel
(cód. 402485)
 
Considerações do poeta

Canto I, Estâncias 105 e 106
 
(…)
Oh! Grandes e bravíssimos perigos,
Oh! Caminho de vida nunca certo,
Que, aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a vida tão pouca segurança!
 
No mar, tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida;
Na terra, tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se o fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
 
 
 
Ø Excurso de carácter filosófico
 
Ø Carácter trágico da existência humana
 
Ø Vulnerabilidade/insegurança  do “bicho da terra”
 
Ø Incerteza quanto ao futuro dos portugueses
 
Ø Perigos do mar e da terra
 
Ø Abundância de exclamações, tom hiperbólico, repetições
 

 
 

No mar: tanta tormenta
                tanto dano
                tantas vezes a morte…
 
F
M
F
Na terra: tanta guerra
                 tanto engano
                 tanta necessidade
Frases simétricas
Ritmo tripartido
Paralelismo
Repetição (tanta, tanto…)

                                                                                                                         
 
 

Consciência da enorme desproporção entre o “fraco humano” e “o Céu sereno”
Pergunta que deixa em suspenso a possibilidade de o “bicho da terra” ultrapassar a sua pequenez face ao Universo (Cf. Proposição: os que vencem a “lei da morte” e se ultrapassam além do que “prometia a força humana”)
 
 

 
 
 
 
 
 
 


Canto V
Estâncias 92 a 100
92

Quão doce é o louvor e a justa glória
Dos próprios feitos, quando são soados!
Qualquer nobre trabalha que em memória
Vença ou iguale os grandes já passados.
As invejas da ilustre e alheia história
Fazem mil vezes feitos sublimados.
Quem valerosas obras exercita,
Louvor alheio muito o esperta e incita.

93

Não tinha em tanto os feitos gloriosos
De Aquiles, Alexandro na peleja,
Quanto de quem o canta, os numerosos
Versos; isso só louva, isso deseja.
Os troféus de Melcíades famosos
Temístoeles despertam só de inveja,
E diz que nada tanto o deleitava
Como a voz que seus feitos celebrava.

94

Trabalha por mostrar Vasco da Gama
Que essas navegações que o mundo canta
Não merecem tamanha glória e fama
Como a sua, que o céu e a terra espanta.
Si; mas aquele Herói, que estima e ama
Com dons, mercês, favores e honra tanta
A lira Mantuana, faz que soe
Eneias, e a Romana glória voe.

95

Dá a terra lusitana Cipiões,
Césares, Alexandros, e dá Augustos;
Mas não lhe dá contudo aqueles dois
Cuja falta os faz duros e robustos.
Octávio, entre as maiores opressões,
Compunha versos doutos e venustos.
Não dirá Fúlvia certo que é mentira,
Quando a deixava António por Glafira,

96

Vai César, sojugando toda França,
E as armas não lhe impedem a ciência;
Mas , numa mão a pena e noutra a lança,
Igualava de Cícero a eloquência.
O que de Cipião se sabe e alcança,
É nas comédias grande experiência.
Lia Alexandro a Homero de maneira
Que sempre se lhe sabe à cabeceira.
97

Enfim, não houve forte capitão,
Que não fosse também douto e ciente,
Da Lácia, Grega, ou Bárbara nação,
Senão da Portuguesa tão somente.
Sem vergonha o não digo, que a razão
De algum não ser por versos excelente,
É não se ver prezado o verso e rima,
Porque, quem não sabe arte, não na estima.

98

Por isso, e não por falta de natura,
Não há também Virgílios nem Homeros;
Nem haverá, se este costume dura,
Pios Eneias, nem Aquiles feros.
Mas o pior de tudo é que a ventura
Tão ásperos os fez, e tão austeros,
Tão rudos, e de engenho tão remisso,
Que a muitos lhe dá pouco, ou nada disso.

99

As Musas agradeça o nosso Gama
o Muito amor da Pátria, que as obriga
A dar aos seus na lira nome e fama
De toda a ilustro e bélica fadiga:
Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,
Calíope não tem por tão amiga,
Nem as filhas do Tejo, que deixassem
As telas douro fino, e que o cantassem.

100

Porque o amor fraterno e puro gosto
De dar a todo o Lusitano feito
Seu louvor, é somente o pressuposto
Das Tágides gentis, e seu respeito.
Porém não deixe enfim de ter disposto
Ninguém a grandes obras sempre o peito,
Que por esta, ou por outra qualquer via,
Não perderá seu preço, e sua valia.
 
 
 
 
 
 
 
 
Invectiva do poeta contra os portugueses, contemporâneos, que desprezam a poesia e a técnica que lhe corresponde.
Ser grande, é sê-lo na coragem, mas também no cultivo das letras e das artes; o ideal de herói, dirá Camões mais tarde, consistirá em aliar a “espada” à “pena”.
“Porque quem não sabe arte, não na estima”

 

Canto VI
Estâncias 95 a 99
95

Por meio destes hórridos perigos,
Destes trabalhos graves e temores,
Alcançam os que são de fama amigos
As honras imortais e graus maiores:
Não encostados sempre nos antigos
Troncos nobres de seus antecessores;
Não nos leitos dourados, entre os finos
Animais de Moscóvia zebelinos;

96

Não com os manjares novos e esquisitos,
Não com os passeios moles e ociosos,
Não com os vários deleites e infinitos,
Que afeminam os peitos generosos,
Não com os nunca vencidos apetitos
Que a Fortuna tem sempre tão mimosos,
Que não sofre a nenhum que o passo mude
Para alguma obra heróica de virtude;

97

Mas com buscar com o seu forçoso braço
As honras, que ele chame próprias suas;
Vigiando, e vestindo o forjado aço,
Sofrendo tempestades e ondas cruas;
Vencendo os torpes frios no regaço
Do Sul e regiões de abrigo nuas;
Engolindo o corrupto mantimento,
Temperado com um árduo sofrimento;

98

E com forçar o rosto, que se enfia,
A parecer seguro, ledo, inteiro,
Para o pelouro ardente, que assovia
E leva a perna ou braço ao companheiro.
Destarte, o peito um calo honroso cria,
Desprezador das honras e dinheiro,
Das honras e dinheiro, que a ventura
Forjou, e não virtude justa e dura.

99

Destarte se esclarece o entendimento,
Que experiências fazem repousado,
E fica vendo, corno de alto assento,
O baixo trato humano embaraçado.
Este, onde tiver força o regimento
Direito, e não de afeitos ocupado,
Subirá (como deve) a ilustre mando,
Contra vontade sua, e não rogando.
 
 
 
Reflexões sobre o valor da glória
 
A glória alcança-se pelo esforço árduo
 
Não se alcança:
·         Pela origem;
·         Pelo conforto;
·         Pelo ócio;
·         Pelos apetites…
 
 
Devem-se desprezar as honras e o dinheiro provenientes da sorte
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

Canto VII
Estâncias 78 a 87
78

Um ramo na mão tinha... Mas, ó cego!
Eu, que cometo insano e temerário,
Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,
Por caminho tão árduo, longo e vário!
Vosso favor invoco, que navego
Por alto mar, com vento tão contrário,
Que, se não me ajudais, hei grande medo
Que o meu fraco batel se alague cedo.

79

Olhai que há tanto tempo que, cantando
O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,
A fortuna mo traz peregrinando,
Novos trabalhos vendo, e novos danos:
Agora o mar, agora experimentando
Os perigos Mavórcios inumanos,
Qual Canace, que à morte se condena,
Numa mão sempre a espada, e noutra a pena.

80

Agora, com pobreza avorrecida,
Por hospícios alheios degradado;
Agora, da esperança já adquirida,
De novo, mais que nunca, derribado;
Agora às costas escapando a vida,
Que dum fio pendia tão delgado
Que não menos milagre foi salvar-se
Que para o Rei Judaico acrescentar-se.

81

E ainda, Ninfas minhas, não bastava
Que tamanhas misérias me cercassem,
Senão que aqueles, que eu cantando andava
Tal prémio de meus versos me tornassem:
A troco dos descansos que esperava,
Das capelas de louro que me honrassem,
Trabalhos nunca usados me inventaram,
Com que em tão duro estado me deitaram.

82

Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
O vosso Tejo cria valorosos,
Que assim sabem prezar com tais favores
A quem os faz, cantando, gloriosos!
Que exemplos a futuros escritores,
Para espertar engenhos curiosos,
Para porem as coisas em memória,
Que merecerem ter eterna glória!

83

Pois logo em tantos males é forçado,
Que só vosso favor me não faleça,
Principalmente aqui, que sou chegado
Onde feitos diversos engrandeça:
Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado
Que não o empregue em quem o não mereça,
Nem por lisonja louve algum subido,
Sob pena de não ser agradecido.
84

Nem creiais, Ninfas, não, que a fama desse
A quem ao bem comum e do seu Rei
Antepuser seu próprio interesse,
Inimigo da divina e humana Lei.
Nenhum ambicioso, que quisesse
Subir a grandes cargos, cantarei,
Só por poder com torpes exercícios
Usar mais largamente de seus vícios;

85

Nenhum que use de seu poder bastante,
Para servir a seu desejo feio,
E que, por comprazer ao vulgo errante,
Se muda em mais figuras que Proteio.
Nem, Camenas, também cuideis que canto
Quem, com hábito honesto e grave, veio,
Por contentar ao Rei no ofício novo,
A despir e roubar o pobre povo.

86

Nem quem acha que é justo e que é direito
Guardar-se a lei do Rei severamente,
E não acha que é justo e bom respeito,
Que se pague o suor da servil gente;
Nem quem sempre, com pouco experto peito,
Razões aprende, e cuida que é prudente,
Para taxar, com mão rapace e escassa,
Os trabalhos alheios, que não passa.

87

Aqueles sós direi, que aventuraram
Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida,
Onde, perdendo-a, em fama a dilataram,
Tão bem de suas obras merecida.
Apolo, e as Musas que me acompanharam,
Me dobrarão a fúria concedida,
Enquanto eu tomo alento descansado,
Por tornar ao trabalho, mais folgado.
 
 
 
 
Nova invocação do poeta às Ninfas do Tejo e do Mondego, queixando-se dos seus infortúnios.
Experiência do poeta
Crítica aos seus opressores

 

Canto VIII
Estâncias 96 a 99
96

Nas naus estar se deixa vagaroso,
Até ver o que o tempo lhe descobre:
Que não se fia já do cobiçoso
Regedor corrompido e pouco nobre.
Veja agora o juízo curioso
Quanto no rico, assim como no pobre,
Pode o vil interesse e sede inimiga
Do dinheiro, que a tudo nos obriga.

97

A Polidoro mata o Ptei Treício,
Só por ficar senhor do grão tesouro;
Entra, pelo fortíssimo edifício,
Com a filha de Acriso a chuva d'ouro;
Pode tanto em Tarpeia avaro vício,
Que, a troco do metal luzente e louro,
Entrega aos inimigos a alta torre,
Do qual quase afogada em pago morre.

98

Este rende munidas fortalezas,
Faz tredores e falsos os amigos:
Este a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capitães aos inimigos;
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra ou fama alguns perigos:
Este deprava às vezes as ciências,
Os juízos cegando e as consciências;

99

Este interpreta mais que sutilmente.
Os textos; este faz e desfaz leis;
Este causa os perjúrios entre a gente,
E mil vezes tiranos torna os Reis.
Até os que só a Deus Onipotente
Se dedicam, mil vezes ouvireis
Que corrompe este encantador, e ilude;
Mas não sem cor, contudo, de virtude.
 
 
 
 
Considerações do poeta sobre o vil metal (ouro)

 
 
 
 
 

Canto IX
Estâncias 93 a 95
93

E ponde na cobiça um freio duro,
E na ambição também, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vício da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vãs, esse ouro puro
Verdadeiro valor não dão à gente:
Melhor é, merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.

94

Ou dai na paz as leis iguais, constantes,
Que aos grandes não dêem o dos pequenos;
Ou vos vesti nas armas rutilantes,
Contra a lei dos inimigos Sarracenos:
Fareis os Reinos grandes e possantes,
E todos tereis mais, o nenhum menos;
Possuireis riquezas merecidas,
Com as honras, que ilustram tanto as vidas.

95

E fareis claro o Rei, que tanto amais,
Agora com os conselhos bem cuidados,
Agora com as espadas, que imortais
Vos farão, como os vossos já passados;
Impossibilidades não façais,
Que quem quis sempre pôde; e numerados
Sereis entre os Heróis esclarecidos,
E nesta Ilha de Vénus recebidos.
 
 
 
 
 
 
Reflexões sobre o significado e o valor da imortalidade

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Canto X
Estâncias 145 a 156
145

Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Düa austera, apagada e vil tristeza.

146

E não sei por que influxo de Destino
Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
Que os ânimos levanta de contino
A ter pera trabalhos ledo o rosto.
Por isso vós, ó Rei, que por divino
Conselho estais no régio sólio posto,
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes.

147

Olhai que ledos vão, por várias vias,
Quais rompentes liões e bravos touros,
Dando os corpos a fomes e vigias,
A ferro, a fogo, a setas e pelouros,
A quentes regiões, a plagas frias,
A golpes de Idolátras e de Mouros,
A perigos incógnitos do mundo,
A naufrágios, a pexes, ao profundo.

148

Por vos servir, a tudo aparelhados;
De vós tão longe, sempre obedientes;
A quaisquer vossos ásperos mandados,
Sem dar reposta, prontos e contentes.
Só com saber que são de vós olhados,
Demónios infernais, negros e ardentes,
Cometerão convosco, e não duvido
Que vencedor vos façam, não vencido.

149

Favorecei-os logo, e alegrai-os
Com a presença e leda humanidade;
De rigorosas leis desalivai-os,
Que assi se abre o caminho à santidade.
Os mais exprimentados levantai-os,
Se, com a experiência, têm bondade
Pera vosso conselho, pois que sabem
O como, o quando, e onde as cousas cabem.

150

Todos favorecei em seus ofícios,
Segundo têm das vidas o talento;
Tenham Religiosos exercícios
De rogarem, por vosso regimento,
Com jejuns, disciplina, pelos vícios
Comuns; toda ambição terão por vento,
Que o bom Religioso verdadeiro
Glória vã não pretende nem dinheiro.

151

Os Cavaleiros tende em muita estima,
Pois com seu sangue intrépido e fervente
Estendem não sòmente a Lei de cima,
Mas inda vosso Império preminente.
Pois aqueles que a tão remoto clima
Vos vão servir, com passo diligente,
Dous inimigos vencem: uns, os vivos,
E (o que é mais) os trabalhos excessivos.

152

Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
Possam dizer que são pera mandados,
Mais que pera mandar, os Portugueses.
Tomai conselho só d'exprimentados
Que viram largos anos, largos meses,
Que, posto que em cientes muito cabe.
Mais em particular o experto sabe.

153

De Formião, filósofo elegante,
Vereis como Anibal escarnecia,
Quando das artes bélicas, diante
Dele, com larga voz tratava e lia.
A disciplina militar prestante
Não se aprende, Senhor, na fantasia,
Sonhando, imaginando ou estudando,
Senão vendo, tratando e pelejando.

154

Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
De vós não conhecido nem sonhado?
Da boca dos pequenos sei, contudo,
Que o louvor sai às vezes acabado.
Tem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente.

155

Pera servir-vos, braço às armas feito,
Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
Só me falece ser a vós aceito,
De quem virtude deve ser prezada.
Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
Dina empresa tomar de ser cantada,
Como a pres[s]aga mente vaticina
Olhando a vossa inclinação divina,

156

Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
A vista vossa tema o monte Atlante,
Ou rompendo nos campos de Ampelusa
Os muros de Marrocos e Trudante,
A minha já estimada e leda Musa
Fico que em todo o mundo de vós cante,
De sorte que Alexandro em vós se veja,
Sem à dita de Aquiles ter enveja.
 
 
 
 
Lamentos do poeta
Apelo a D. Sebastião, exortando-o a concretizar novas glórias
Elevado lusitanismo

 


publicado por Isabel Marques às 11:19
Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

Olá a todos, queria apenas saudar todos os que entrarem nesta tentativa de blog.

 

Isabel



publicado por Isabel Marques às 23:24
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