Segunda-feira, 02 de Março de 2009

 

ESPAÇO
 
Espaço cénico
 
-          O espaço cénico contribui para a construção de sentidos da obra, expondo a dimensão ideológica da mesma. Os sons, os jogos de luz/sombra, os objectos decorativos e a posição das personagens em palco são os elementos a destacar.
 
-          Manuel, situado num espaço cénico dominado pela escuridão, é subitamente exposto à luz, ocupando um lugar à frente do palco. O carácter simbólico da sua presença é posto em evidência através dos seguintes aspectos:
 
·         Manuel, enquanto símbolo do povo oprimido, traduz a estagnação de um país, a impossibilidade de mudança, pela repressão imposta pelo Poder, através da sua pergunta absurda, do gesto de impotência e dos trajes andrajosos que veste;
 
·         A escuridão que rodeia a personagem sugere o abismo que a engole, enquanto representação da miséria, da ignorância e da opressão;
 
·         A nível da movimentação, a impossibilidade de continuar, por parte da personagem («detém-se»), indicia a perda irremediável do general Gomes Freire e, em consequência, a perda da esperança.
 
Espaço físico
 
-          Lisboa surge como um macroespaço, onde se inscrevem espaços de dimensão mais reduzida:
 
·         Ruas – local onde os populares mendigam e comentam os acontecimentos, embora sempre intimidados pela presença da polícia
·         Rossio – sede da Regência
·         Rato – casa do general
·         Sé – local onde Manuel costuma pedir esmola
·         Campo de Sant’Ana – local das execuções (posteriormente será designado por Campo dos Mártires da Pátria)
·         Serra de Santo António – local de onde Matilde assiste à execução do marido
·         S. Julião da Barra – local onde Gomes Freire é preso e sentenciado
 
 
 
 
 
 
 
Espaço social
 
Classes sociais: Povo / Poderosos
 
-          O povo é caracterizado pela sua pobreza, doença e miséria: o vestuário andrajoso, os sacos e caixotes que servem de acomodações, o contínuo mendigar.
 
-          Os poderosos, pelo contrário, surgem representados na sua riqueza ostensiva e arrogante (guarda-roupa cuidado, cadeiras como «tronos»).
 
Conflitos políticos / sociais
 
-          No período posterior às Invasões Francesas e à partida da corte para o Brasil, o reino vive uma conjuntura política e social marcada pela crise e pela luta entre um poder repressivo e a aspiração da liberdade que conduzirá à revolução liberal:
 
·         O Conselho de Regência, que integrava oficiais ingleses e membros do clero, mantém uma política de tirania, repressão e perseguição de todos os que se insurgissem contra o poder oficial.
 
·         A atitude persecutória dos governadores é particularmente evidente na condenação e proibição das sociedades maçónicas e qualquer tipo de associação.
 
·         O povo, descontente, votado à miséria e ao silêncio, mas desejoso de liberdade, confere ao general Gomes Freire o estatuto de herói, já que representa a única esperança de revolta contra a opressão.
 
Valores sociais em crise
 
-          A impotência do povo contra o despotismo
 
·        Manuel, o homem do povo, reflecte a sua incapacidade para resistir ao sistema, através da interrogação que abre os dois actos («Que posso eu fazer?», 15).
 
-          A recusa do progresso e da cultura
 
·        O Principal Sousa clarifica as directrizes de um regime absolutista, em que cultura é sinónimo de poder e, por isso, deve ser mantida inacessível às massas populares («...a sabedoria é tão perigosa como a ignorância! (...) Sei bem como a palavra “liberdade”, na boca dos demagogos, se torna aliciante ...» 36; «Por essas aldeias fora é cada vez maior o número dos que só pensam aprender a ler... Dizem-me que se fala abertamente em guilhotinas e que o povo canta pelas ruas canções subversivas.» 40).
 
-          A corrupção, a imoralidade e a injustiça dos políticos
 
·        D. Miguel põe em destaque a corrupção que garante a autoridade do Poder («A questão que temos de resolver (...) Consiste apenas em chegarmos a acordo acerca da pessoa que mais nos convém que tenha sido o chefe a conjura.» 61), deixando também evidente que são os caprichos pessoais que motivam a actuação política, ao serviço de interesses que se sobrepõem à verdade e à justiça («Para o público não compreender o que se passa, o julgamento será secreto, e para evitar o perdão de el-rei, a execução seguir-se-á imediatamente à sentença.» 65).
 
-          A ambição mesquinha e a conspiração
 
·        Beresford mantém-se atento à defesa dos interesses do reino («Neste país de intrigas e de traições, só se entendem uns com os outros para destruir um inimigo comum...» 63), mas apenas por interesses materiais, não escondendo o seu desprezo pelo país onde trabalha, já que «reduz os presentes, a cidade e o país a uma insignificância provinciana e total» («Pretendo uma única coisa de vós: que me pagueis – e bem!» 58)
 
-          A traição, a conspiração generalizada
 
·        A corrupção material e moral parece atingir todas as classes sociais, como se depreende da traição de Vicente e de Andrade Corvo e Morais Sarmento («Se eu souber render o peixe, sou capaz de acabar com uma capela... ou chefe de polícia, quem sabe?» 31; «Meu amigo: você desconhece o que se compra de respeitabilidade com uma pensão anual de 800$00...» 47).
 
-          A condenação dos ideais maçónicos
 
·        O ataque à Maçonaria, que para os governadores era sinal de agitação e revolução, surge identificado na intervenção de D. Miguel («...aí tendes o chefe da revolta. Notai que lhe não falta nada: é lúcido, é inteligente, é idolatrado pelo povo, é um soldado brilhante, é grão-mestre da Maçonaria e é, senhores, um estrangeirado...» 71) e do Principal Sousa («Os piores, Srs. Governantes, são os pedreiros-livres... Ninguém mais do que eles contribui para o alastramento da gangrena. Quem será o chefe da Maçonaria?» 67).
 
-          Os caprichos pessoais dos poderosos contra a vontade do povo
 
·        Os interesses de Estado não são os interesses do povo, mas das classes privilegiadas («Pergunto-vos, senhores: que crédito, que honras, que posições seriam as nossas, se ao povo fosse dado a escolher os seus chefes?» 69), movidas pelas vinganças pessoais e pela ambição («Se eu fosse a falar do ódio que lhe tenho...»; «Agora me lembro de que há anos, em campo d’ Ourique, Gomes Freire prejudicou muito a meu irmão Rodrigo!» 72).
 
·        Matilde, a voz da indignação e do inconformismo, expõe de forma clara a podridão de uma sociedade corrupta e mesquinha («Ensina-se-lhes que sejam valentes, para um dia virem a ser julgados por covardes...»; «Não seria mais humano, mais honesto, ensiná-los, de pequeninos, a viverem em paz com a hipocrisia do mundo?» 83;«...rodeada de inimigos numa terra hostil a tudo o que é grande, numa onde só cortam as árvores para que não façam sombra aos arbustos...» 85).
 
Espaço psicológico
 
-          As recordações de Matilde de uma felicidade passada ao lado de Gomes Freire remetem para o carácter redentor e purificador do amor, em contraste com a violência e a hipocrisia da sociedade (90-92).
 
 
TEMPO
 
Tempo histórico
 
-          Século XIX – período posterior às Invasões Francesas, que antecede as primeiras manifestações de revolta popular, que conduzirá à Revolução Liberal.
 
-          Século XX – regime ditatorial do Estado Novo, representado por Oliveira Salazar.
 
Tempo dramático
 
-          0s acontecimentos dramáticos remetem para a referência a factos ocorridos alguns anos antes:
 
·         Manuel relembra as Invasões Francesas e a presença dos ingleses no governo (16)
·         Vicente recorda a partida do rei para o Brasil (27)
·         O antigo Soldado refere as batalhas ocorridas há dez anos (18)
·         Matilde recorda a sua vida com o general e as batalhas em que participou pela Europa (90)
 
-          As referências temporais situam em dois dias os acontecimentos mais dramáticos da obra, embora historicamente tudo se tenha passado em cinco meses (Maio/Outubro). A redução temporal traduz simbolicamente a parcialidade da justiça da época, que condena sem provas, e contribui para a intensidade trágica da morte do general.
 
-          O Acto I tem início de madrugada e prolonga-se por dois dias:
 
·         «Eram quase cinco horas...» (17)
·         «Há dois dias...» (50)
·         «Há dois dias que quase não durmo...» (68)
 
-          O Acto II começa na manhã do dia em que prenderam Gomes Freire e prolonga-se por seis dias:
 
·         «Passaram toda a noite a prender gente...» (80)
·         «Vem aí a madrugada...» (108)
·         «Ah! Senhora, se o general estivesse esta noite aqui... » (108)
·         «Amanhã, quando começarem a agradecer a Deus a prisão do general...» (109)
·         «Depois de amanhã, senhora...» (109)
·         «Esta madrugada prenderam Gomes Freire...» (79)
·         «Desde aquela noite que só penso em si.» (104)
·         «Só ao fim de seis dias lhe abonaram dinheiro para comer...» (111)
·         «Há quatro dias que me não deito...» (130)
·         «...hoje, 18 de Outubro de 1817.» (129)
 

No Acto I, os acontecimentos precipitam-se até à prisão do general, embora no Acto II o tempo flua lentamente, o que intensifica o dramático sofrimento de Matilde, que



publicado por Isabel Marques às 15:51
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